Lenda dos Olhos de Água e da Barra da Fuseta

APL 136

Foi na terra da Fuseta que infanta moira, de beleza nunca vista, e de graça inaudita, era por todos vista como deusa ou uma santa. Embora clamando pelas Leis do Al-Corão, era aos mais pobres que entregava o seu coração. A todos risos e dinheiro dava pela sua mão e ao seu povo nunca dizia que não.
 Bela, graciosa e gentil, só o amor lhe faltava porque em si desde há muito o guardava para outro honrado e valente. Cristão ou da sua raça mourisca, desde que as suas palavras atingissem o seu coração à sua religião (des)obedeceria. E a esta alma enamorada o destino fez chegar um filho de Jesus Cristo, com toda a riqueza da terra e um coração para amar. Mas Zhagma não se rendeu aos encantos do português sem primeiro lhe pedir um desejo: que ele lhe trouxesse à sua mão a água toda inteirinha que há em todo o mar. Forte, determinado e rápido, logo partiu o chefe da gente portuguesa para a beira-mar onde começou a cavar um canal que assim levava as águas do grande mar até aonde a moura habitava. Numa só noite findou o seu trabalho e a água do mar a ela chegou, no outro dia, pela hora crepuscular.
 No solar da moira Zhagma erguia-se um paredão que prendeu a água toda que vinha do mar. Feito isto, ia já entregar-se a islamita ao cristão quando ouviu o estrondo de um assombroso trovão!
 Era Állah que tudo vira, e com a sua ferida aberta, aos dois decide encantar, já que mulher nascida agarena para sempre assim deve ficar. Deste modo, o rio foi seco, mas por Zhagma foi alimentado com seu choro de infiel, enquanto o português ao mar foi deitado já desfeito em grãos de areia. Do destino não esconde a mágoa, a mourinha de choro contínuo e brando que deu origem aos Olhos de Água que vão aos poucos secando. E a areia posta no mar, naquela quietude sem fim, é que anda agora a fechar, dia a dia, a velha barra.

Source AA. VV., - Lendas e Gastronomia Olhanenses Olhao, Ensino Recorrente e Educação Extra-Escolar / Coord. Concelhia de Olhão, 2002 , p.15

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

Narrative

When XXI Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

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