Os Marinhos e as ilhas encantadas

APL 1212

Há muitos anos, as ilhas aos Açores estavam encantadas, envoltas em nevoeiros e inacessíveis aos navios que vinham de fora, pois elas eram um reduto cristão, enquanto os mouros dominavam quase toda a Península Ibérica.
 Por essa altura havia um certo cavaleiro bom, D. Froião, que vivia no Minho, num belo castelo e era caçador e monteiro. Uma vez, quando andava por uma cerrada selva que ficava à beira-mar, resolveu ir até uma garganta entre dois montes, onde as águas de uma ribeira se juntavam às do mar; a ver se encontrava ali algum veado a matar a sede. Mas o que encontrou foi uma mulher, filha do mar, que dormia, descansada. D. Froião tentou aproximar-se silenciosamente do lugar, mas, ao caminhar, a mulher acordou e começou a correr em direcção ao mar. D. Froião correu e agarrou-a com os braços, enquanto ela se debatia a lutar, mas sem lançar qualquer gemido. Por fim, com a aluda dos seus três escudeiros, pô-la sobre o cavalo e levou-a para casa.
 A mulher era muito formosa e D. Froião apaixonou-se por ela. Fê-la baptizar, deu-lhe o nome de Marinha, e dela teve os seus filhos, os Marinhos.
 D. Froião amava muito Dona Marinha, mas tinha pena porque ela não dizia palavra e só suspirava com saudades do mar. Um dia ele mandou fazer uma fogueira e, quando Dona Marinha se aproximou com um dos filhos que tanto amava, D. Froião pegou na criança e fingiu que a atirava para o fogo. A mulher, com a aflição, lançou um grande brado e a partir de então começou a falar. Dom Froião casou com Dona Marinha. Ela libertou-se do encanto do mar e puderam viver num castelo à beira-mar.
 Os filhos, os Marinhos, foram crescendo, mas como se fosse um fado, cada vez mais se sentiam apaixonados pelo mar. E, ou porque a mãe lhes tinha contado as histórias do oceano, ou porque o avô lhes tinha revelado os seus segredos na voz dos búzios, o certo é que eles conheciam todos os segredos do mar e mostravam-se tão destros que ganharam a fama dos melhores mareantes de então:
 Foi um destes filhos de Dona Marinha e de D. Frõião, Machico, que descobriu a Madeira.
 Com o passar dos anos, muitos outros Marinhos, filhos ou netos de D. Froião e Dona Marinha, foram nascendo e foram eles que tiveram a coragem de se lançar ao mar e enfrentar os perigos do Mar Tenebroso.
 Alguns desses Marinhos, navegando numa caravela, depois de uma grande viagem, conseguiram ultrapassar os ventos e os nevoeiros e aportar de uma vez a uma ilha no Atlântico, onde havia muita riqueza, palácios, igrejas — era a Ilha das Sete Cidades. Passados dias, os marinhos rumaram para o continente para darem a notícia.
 Anos mais tarde voltaram, depois dos cristãos terem expulsado os mouros da Península Ibérica, mas já não encontraram as cidades, os palácios, as igrejas que tinham visto pela primeira vez. Apenas a ilha lá estava. E pouco a pouco foram descobrindo outras ilhas verdejantes e de clima ameno, as ilhas dos Açores.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.20-21

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When XX Century, 90s

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