Almourol e Cardiga, S. Miguel e Santa Maria

APL 1213

Há muitos anos, vivia no seu castelo, junto ao rio Tejo, um enorme gigante mourisco que se tinha convertido ao cristianismo. Este gigante, de espantosa estatura, era Almourol que se perdera de amores por Cardiga, de menor estatura, mas igualmente gigantesca.
 Como tudo o que é bonito dura pouco, também a morte veio separar os gigantes enamorados. Por sorte, o corpo sepultado de Cardiga veio andando rio abaixo, entrou no mar e acabou por encalhar ao sul das Formigas, transformando-se em terra — a ilha de Santa Maria.
 Almourol, que em vida tinha tido a incumbência de guardar Miraguarda, já moribundo, meteu-se pelo mar, por ser seu desejo ficar a jazer para sempre junto da amada. E, batendo aqui, esbarrando ali, chegou finalmente ao destino.
 Num adeus comovido e derradeiro, o gigante estendeu um dos braços à amante, com ternura, e finou-se por fim, transformando-se numa grande ilha — a ilha de S. Miguel.
 A sua cabeça transformou-se no Morro do Nordeste e uma das suas orelhas na freguesia de Água Retorta. O pescoço do gigante, encolhido de um lado, estende-se, do outro, desde o Faial da Terra à Povoação. Os Fenais da Ajuda e Ponta Garça são os ombros do gigante, enquanto que os cotovelos se mostram nos lugares da Maia e Vila Franca. As enormes mãos transformaram-se no que hoje é a Ponta de Santa Iria e a Ponta da Galera. A cintura está limitada por Rabo de Peixe e a Lagoa. A fralda da sua cota de malha é revelada pelos Fenais da Luz e pelo Ilhéu de Rosto de Cão, onde o cinto aperta com um nó. A coxa direita vai de Santo António à Bretanha, e a esquerda, de Ponta Delgada às Feteiras. Na ponta da Bretanha e na Candelária salientam-se os joelhos. O João Bom e os Ginetes ficam no lugar das pernas, meio dobradas. O pé esquerdo ficou inicialmente levantado no lugar onde hoje é as Sete Cidades, mas, com o peso, descaiu e escondeu-se em parte no mar, deixando as pontas dos dedos de fora - são os ilhéus dos Mosteiros. O pé direito era o Pico das Camarinhas, que acabou por estender-se também sobre o mar. O gigante trazia vestida uma enorme opa com botões, que são agora altos montes; Ao andar, a opa de cor verde, ainda hoje evidente nos campos micaelenses, ficou com uma parte ruça e é por isso que o lado ocidental da ilha se apresenta sem qualquer verdura, pelo que é chamado de Escalvado.
 O povo destas ilhas, por ser filho desses infelizes amantes, cujo fim foi tão triste, traz gravado na alma uma mágoa latente, que se exterioriza na sua música, cantares e bailes.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.21-22

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

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