Frei Diogo do Amor de Deus

APL 1282

Diogo era um jovem muito impulsivo, filho de um ourives algarvio. Muito novo apaixonou-se por uma vizinha, uma linda rapariga de olhos de jade.
 Numa certa manhã de Abril, na oficina de ourives do pai de Diogo, foi entregue um cálice de prata para dourar, no qual ainda naquele dia tinha sido colocada a hóstia consagrada, durante a missa rezada na igreja matriz.
 Ao verem tão belo cálice, os dois jovens namorados não hesitaram e, entre risos de alegria e juras de amor, às escondidas do ourives, beberam vinho e mel pelo vaso sagrado, sem pensarem no sacrilégio que cometiam. A noite, quando estava deitado, Diogo teve uma visão aterradora — na parede do quarto, escritas a fogo, apareceram as seguintes palavras “contado, pesado, dividido”.
 O jovem ficou preocupado e, na manhã seguinte, procurou um monge com fama de santo e sábio para que lhe interpretasse as palavras da visão. Depois de ouvir a interpretação - “contados, os dias; pesados na balança divina; divididos a casa e os bens do pai pelos inimigos” — Diogo pediu que lhe indicasse um caminho.
 O monge disse-lhe que, para poder depois da morte encontrar o céu, teria de entrar para a congregação dos irmãos de S. Paulo, os eremitas da morte, e aproximar-se em vida do fogo do inferno.
 Convencido pelas palavras do monge, Diogo abandonou a jovem amada e a casa do pai, fez-se frade e embarcou para as regiões do Missouri, cuja nascente é um verdadeiro respiradouro do inferno. Passou anos nesta região, servindo doentes e enterrando os mortos.
 As mortificações do corpo traziam-lhe paz à alma, mas, cansado de enormes trabalhos, embarcou para Portugal, fazendo escala no arquipélago dos Açores.
 A viagem fortificou-o e, ao desembarcar em Vila Franca, dali se dirigiu para o vale das Furnas, onde passou a habitar uma choupana, junto da ermida de Nossa Senhora da Consolação. Mais uma vez escolhera o ambiente que na terra mais o poderia aproximar da visão do inferno e aí passou a viver uma vida de penitência e de louvor ao Senhor.
 D. Manuel da Câmara, capitão donatário da ilha de S. Miguel, considerou a vida deste eremita e mandou edificar um pequeno mosteiro para Frei Diogo e outros eremitas.
 Contudo, nos primeiros dias de Setembro de mil seiscentos e trinta, durante a noite, a terra começou a tremer, caíram chuvas bastas de cinzas que soterraram homens, animais e plantações.
 Os eremitas do Vale das Furnas recolheram imagens, relíquias e o sacrário e puseram-se em fuga para o Vale de Cabaços. Apenas Frei Diogo do Amor de Deus ficou e, no momento em que a onda de lava o abrasou, estendeu-se por toda a ilha uma fragrância, um perfume celeste. No lugar do antigo mosteiro dos eremitas construiu-se, anos mais tarde, a igreja das Furnas, cuja padroeira é Santa Ana.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.106-107

Place of collection Furnas, POVOAÇÃO, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrative

When XVII Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

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