A Fonte dos Amores, Fonte Casamenteira

APL 1283

Na conhecida freguesia das Furnas, no Pico de António Borges, existe uma nascente que corre numa pia à esquerda da ponte, para quem num valezito com uma furna ao fundo.
 Essa fonte é conhecida pela Fonte Casamenteira porque, com efeito, quem bebe a água que dali jorra inexplicavelmente se apaixona. A influência que a fonte exerce começa com o calor do Verão e vai crescendo até que atinge o ponto máximo no dia quinze de Agosto. Nesse dia a sua influência é fatal.
 Assim aconteceu com uma riquíssima morgada e o filho de um modesto lavrador.
 A menina, filha de uma família nobre, era muito linda, mas fraca e macilenta, reflectindo na sua constituição os casamentos consanguíneos, ao longo de várias gerações. O pai, o morgado, lutava contra a debilidade da filha, levando-a, desde muito nova, aos banhos de mar à praia de Rosto de Cão ou indo passar temporadas nas Furnas, sempre com um médico por perto para cuidar da morgadinha. Esta continuava fraca e sem força para nada, mas mesmo assim estava destinada já em casamento, há vinte anos, que era quantos ela tinha, a um primo, por sinal bastante desequilibrado mentalmente.
 Naquele ano a família da morgadinha estava a passar o Verão nas Furnas e, no dia quinze de Agosto, como toda a gente, foi em romaria ao Pico de António Borges.
 Na mata inculta e coberta de vegetação abundante, já se tinham aglomerado muitas pessoas que se sentavam nas pedras e nos tapetes de folhas ou ervas. Havia tocadores de viola, cantava-se ao desafio e todos se divertiam, dançando ou vendo dançar o “balho furado”.
 O calor era intenso. De vez em quando alguém aproximava-se da fonte, com uma folha fazia copo, e bebia a água miraculosa.
 Assim fez também a morgadinha: sequiosa, bebeu água e atirou a folha que tinha servido de copo para o lado.
 Um jovem da Bretanha, rapaz vigoroso e alegre, tinha cantado e bailado, rido e gracejado toda a tarde e, por isso, sentiu a garganta seca. Dirigiu-se para a fonte, apanhou a folha que a morgadinha tinha atirado ao chão e refrescou-se, sem imaginar sequer as consequências desse simples gesto.
 Imediatamente os dois jovens de berços tão diferentes se sentiram enamorados. A fraca morgadinha, de repente sentiu uma força a que não estava habituada, a sua pele amarelada ficou rosada e com uma cor de saúde.
 Ainda não tinham passado oito dias e já o jovem lavrador da Bretanha tinha raptado a sua amada. O escândalo foi grande, o morgado mandou toda a criadagem em busca da filha e do malvado que a tinha roubado. Acabou, por fim, por acalmar-se e não teve outro remédio senão aceitar o rapaz da Bretanha como genro.
 A morgadinha, como o ramo de uma planta fraca enxertada numa planta bravia e vigorosa, tornou-se numa bela mulher, cheia de força e saúde. Viveu muitos anos felizes, casada com o lavrador, graças ao condão da Fonte dos Namorados.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.107-108

Place of collection Furnas, POVOAÇÃO, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

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