A Devoção de António Gracioso à Senhora da Paz

APL 1292

Vivia, há muitos anos atrás, em Vila Franca do Campo, António Gracioso, um camponês, que tinha grande devoção por Nossa Senhora da Paz e era crente em muitos milagres operados por intercessão dessa Santa. Desde que se conhecia, nunca perdera uma das festas que se realizam em seu louvor, no segundo domingo de Novembro, na ermida que se ergue com graça pitoresca no cimo do monte sobranceiro à vila. Fazia-se sempre acompanhar por uma dedicada burra, que lhe servia de meio de transporte no difícil caminho que conduz à ermidinha.
 Ora aconteceu que certo ano, no dia da festa em honra a Nossa Senhora da Paz, António Gracioso, talvez porque estivesse mal humorado, apoquentado com as contrariedades da vida, resolveu não ir às celebrações de que tanto gostava. Enquanto muito pessoal já coloria a velha escadaria de pedra ou enchia de vida e alegria o tortuoso e íngreme caminho, Gracioso continuava a fazer a sua costumeira vida cá em baixo. Ao passar por uma das ruas nos seus afazeres, deparou-se com um amigo que, conhecendo bem a devoção do António, ficou tolo por o encontrar ali, naqueles trajes de trabalho. Quase não podendo acreditar no que via, perguntou: 
 — Eh home, então não vais lá cima ter com Nossa Senhora da Paz?
 — Quem, eu? Só se Ela vier cá baixo ter comigo! - respondeu-lhe António Gracioso de sobrolho franzido.
 Ainda não tinha acabado de pronunciar estas palavras e já a burra ia a fugir encosta arriba, como se fosse impelida por voz amiga. António Gracioso correu atrás dela tanto quanto pôde, mas só conseguiu apanhar o animal lá em cima, ao pé dos degraus que conduzem à ermida Estava esfalfado e, compreendendo a falta que, tinha cometido para com a Senhora da Paz e a lição que Ela lhe tinha querido dar através da burra, galgou os degraus que conduzem aos pés da Santa. Prostrou-se de joelhos, arrependido, e rezou assim:
 — Ó minha Senhora, perdoai-me pela falta de respeito. Compreendei, eu estava mal disposto!
 Ali lhe prometeu nunca mais faltar à Sua festa enquanto ele ou a burra pudessem subir o caminho. As pessoas da Vila Franca, tendo conhecimento do sucedido, redobraram na fé a Nossa Senhora da Paz, ganhando a Sua festa ainda mais brilho.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.117

Place of collection Vila Franca Do Campo (São Miguel), VILA FRANCA DO CAMPO, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

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