As canas da Índia nas Flores

APL 1416

Há mais de dois séculos, havia na ilha das Flores um pescador que era casado e tinha uma filha a quem tinha posto o nome da mulher, Maria. Não eram ricos, mas viviam os três na paz do Senhor, terminando-se com o produto das pescarias que o homem fazia, ora de noite se fazia escuro, ora de dia se era tempo de lua.
 Porém, numa sexta-feira esta vida mudou. Uma feiticeira, que era vizinha, estava à beira da morte e a mulher e a filha do pescador, boas e caridosas, acudiram-lhe. A feiticeira, agoniada, por não poder morrer sem passar a sua sina a outra, estendia o novelo e gritava:
 — Quem pega que eu largo!? Quem pega?
 A mulher do pescador, vendo aquele sofrimento e sem saber no que se estava a meter, pegou no novelo. Imediatamente a feiticeira morreu e no mesmo momento mãe e filha passaram a ter a arte de feiticeira.
 A princípio o pescador não deu por nada e a vida parecia continuar como era costume. Mas a pouco e pouco o homem começou a notar alguma coisa estranha e, no dia em que encontrou pela manhã o barco todo molhado sem ter ido nele ao mar, ficou de orelha em pé.
 Nessa noite fingiu que estava a dormir e, como ele esperava, altas horas da noite, a mulher e a filha saíram de casa e ele saiu atrás delas. Enquanto as duas Marias vagueavam pela terra, o pescador correu para o barco, embrulhou-se numa vela e escondeu-se à popa. Passou ali mais de uma hora e, quando era pouco mais da meia noite, chegou a mulher e a filha e logo uma disse:
 — Põe-te a caminho com duas!
 Mas o barco não se mexeu e então a outra mandou:
 — Põe-te a caminho com todos!
 E assim foi, o barco pôs-se a andar por cima das ondas com tal velocidade que mais parecia voar. Em poucos instantes estavam numa praia da India. As duas feiticeiras desembarcaram, meteram-se por entre um canavial que ficava à beira-mar e ali comeram, beberam, dançaram e folgaram com dois rapazes que tinham vindo do mato.
 O pescador estava tolo com o que via, mas teve ainda a ideia de arranjar uma prova para as suas palavras. Arrancou uma cepa de cana e voltou para o barco onde se escondeu outra vez.
 As feiticeiras chegaram daí a pouco e puseram-se a caminho, depois de uma gritar:
 — Põe-te a caminhar com todos!
 O poder da feitiçaria era tanto que muito antes do amanhecer já estavam nas Flores e com o barco varado.
 Logo que pôde, o pescador foi contar ao padre o acontecimento, mostrou-lhe como prova a cepa de cana e pediu-lhe a sua intercessão. O padre veio, benzeu a mãe, a filha e o barco também. Quebrou-se o novelo e acabou a sina de feiticeira das duas. Mas o que nunca mais acabou nas Flores foi a cana da India, que rebentou da cepa que o pescador trouxe e plantou no quintal.

Source FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.265-266

Place of collection Santa Cruz Das Flores, SANTA CRUZ DAS FLORES, ILHA DAS FLORES (AÇORES)

Narrative

When XVIII Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

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