A Cobrinha do Barranco

APL 1593

Em frente da residência paroquial da Mexilhoeira Grande havia, há uns vinte anos, um barranco, aberto na barreira, por onde toda a gente tinha medo de passar por aparecer ali, em outros tempos, um mourinho encantado, de que todos se receavam.
 A Câmara de Portimão teve a feliz ideia de destruir o encanto, fazendo passar por aquele lugar a estrada nova, que, em rampa mais suave, atravessa a povoação até à igreja paroquial.
 Havia em tempos idos um maioral de cabras, casado, que tinha a sua pobre choupana mesmo em frente do referido barroco. Todas as noites trazia ele o leite mugido na tarde com que a mulher e numerosos filhinhos se alimentavam, vendendo o restante para comprar o pão das sopas. De madrugada voltava para o gado, e assim ia vivendo em muita miséria, mas ainda assim satisfeitos todos com a sua sorte.
 Em um dia que a mulher do pastor acabava de abafar o leite da véspera, viu entrar-lhe pela porta uma cobrinha, côr de oiro, muito pequenina e tão linda, tão linda, que a pobre mulher, longe de se assustar não podia dela afastar os olhos. Fazia a cobrinha uns meneios com tanta graça, abria a boquinha com tanta gentileza e maneava a cauda em compasso tão vivo e tão fugaz, que era um encanto vê-la.
 Lembrou-se a mulher de lhe encher uma escudela de leite ainda morno e pôr-lho próximo, por ter ouvido dizer que as cobras são gulosas deste alimento. Pelo menos ouvira contar às suas vizinhas que as cobras de noite sobem aos telhados das casas onde há mães ou amas criando e, descendo até à cama em que dormem ao lado das criancinhas, ousam mamar, entretendo a guloseima das crianças com o extremo, da cauda, que lhes metem nas boquinhas.
 Bebeu a cobrinha o leite com sofreguidão e saiu, não sem voltar repetidas vezes a cabeça para a mulher do pastor, como convidando-a a acompanhá-la. Repetiu-se a mesma cena nos dias seguintes e à mesma hora até que a mulher se resolveu a seguir a sua hóspede com quem se familiarisara, a ponto de a afagar e de lhe fazer festas, que a cobrinha agradecia a seu modo.
 Foi a mulher atrás da cobrinha, que se dirigiu para o aludido barranco, entrando ambas por uma abertura, que havia na barreira. Imediatamente se levantou uma grande lagem, deixando ver uma formosa escada de alabastro, de onde, ao mesmo tempo saia um mourinho, muito gentil, de gorro encarnado e que, com modos muito corteses e carinhosos, em repetidas instâncias, pedia à mulher que o seguisse ao seu palácio subterrâneo, porque disso dependia a sua fortuna.
 Convencida a mulher de que quem não sabe utilizar-se da fortuna, quando ela vem, não deve queixar-se, quando ela se vai, encheu-se de ânimo, desceu as escadas atrás do mourinho, e achou-se em um formoso aposento de cristal de rocha, e nele viu amontoada em cofres de oiro tanta riqueza em dinheiro e pedras preciosas, que ninguém pode imaginá-lo e menos descrevê-lo.
 — Tudo isto te pertence, disse-lhe o mourinho, em recompensa de me haveres quebrado o encanto em que jazia.
 — De que maneira quebrei o encanto? Perguntou a mulher, saindo do espanto em que tanta riqueza a submergira.
 — Não te assustando de ver a cobrinha que enviei para aqui te conduzir. É necessário, porém, para utilizares destas riquezas, que agora mesmo conduzas tudo o que puderes para tua casa, e que tudo aí, escondas por forma que nem teu marido nem os teus filhos, durante três meses inteiros, o tempo que careço para chegar à mourama, minha pátria, nem sequer suspeitem da fortuna que lhes destino. Durante estes três meses jejuarás todos os dias e, sem que eles passem, não tocarás em um real do que daqui levares.
 Assim prometeu a corajosa mulher e assim o fez. Diz-se, e é verdade, que o espírito e o saber dos homens acertam muitas vezes menos do que o simples instinto das mulheres. A condição imposta pelo mourinho seria de uma solução dificílima, se não impossível, se a sua realização dependesse simplesmente do homem; mas a mulher do pastor soube perfeitamente cumprir todas as cláusulas da condição com uma rectidão pasmosa.
 Começou logo por dar destino aos filhinhos, mandando para fora de casa; tirou as mós do tremonado, limpou-o do entulho que o enchia, meteu nesse vazio quanto dinheiro e joias pôde carrear, cubriu tudo de argamassa, pôs as mós no seu lugar, e dia a dia ia contando o seu jejum com o cuidado de quem não queria enganar-se. Três meses contados, mostrou então ao marido a fortuna que lhes entrara em casa.
 É claro que daí em diante o marido deixou de pastorar o seu rebanho. Ambos deixaram o seu rude oficio, e ambos, transformados em grandes personagens, pois que o dinheiro foi sempre um pergaminho de nobreza que nunca debota, foram residir na corte, onde foram cobertos de honras e mercês. Seus filhos, educados na capital, foram também grandes senhores, pois que a riqueza era tanta que o seu desbarato se tornou impossível, e ainda hoje chega até nós a fama de gente tão rica.
 Não diz a lenda se os netos também foram pessoas importantes no seu tempo; e por mais que quis apurar este ponto nada consegui, por ignorar completamente quais eram os seus nomes. Nas instâncias superiores foi respondido que se eu chegasse a apurar que eles eram ricos, facilmente poderia concluir daí a sua importância, porque, segundo a sabedoria das nações, o dinheiro é uma potência, sem rival, que faz de um analfabeto um homem poderoso, até mesmo um par do reino.
 Como esta resposta vem das superiores instâncias, limito-me a reproduzi-la, sem mais considerações.

Source OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loule, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.239-241, cap. XXXVI

Place of collection Mexilhoeira Grande, PORTIMÃO, FARO

Narrative

When XIX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications

MotifsTh [F721.5.1.] Underground palace full of jewels.
Th [F178.1.] Red as otherworld color.