E os corredores?

APL 1677

«Um velho pescador de Coelheiro vinha com a cesta para o mar. Ao chegar à ponte, saiu-lhe de um portal um chico que se pôs na sua frente a grunhir, não o deixando passar. O pescador trazia na cesta uma faca da cortiça e procurou com ela defender-se do animal, dando-lhe uma grande picadela. Então o porco ficou como moribundo, a desseibar-se no chão, enquanto o pescador fugia a bom correr... Passados dias, aparece na casa do pescador um homem bem posto, com um olho fora e disse-lhe: “O que é que se devia fazer a um homem que faz isto?”, e apontou-lhe o seu defeito no olho. O pescador não hesitou em responder-lhe: “Era só matá-lo — Pois então é você que vai morrer, porque foi você que me fez isto!” O pescador, receoso, negou, negou, negou sempre. Então o homem, que era um rico lavrador, disse ao pescador: “Não tenha medo. Você salvou-me, acabando com o meu fado!” E contou-lhe o que se tinha passado com o porco que o pescador tinha picado e que era ele a correr o fado, acrescentando: “Vou-lhe mandar, pela sua caridade, uma pipa de vinho e um carro de pão.” E mandou-lhe tudo o que prometeu.»


 «Na padaria da velha Trolha apareceu uma noite um homem muito aflito com um braçado de roupa a suplicar que a queimassem no forno e que trancassem imediatamente as portas da padaria para evitar que um corredor, que vinha atrás dele, destroçasse tudo. Os moços da padaria assim fizeram. Passados uns momentos, o corredor, cercado de cães, estava à porta, atirando-se contra esta com furor. Na padaria tudo tremia de medo. O barulho à porta manteve-se, até que se queimou por completo a roupa no forno. Então, fez-se silêncio e ouviu-se uma voz de homem dizer para dentro: “Abram, por esmola, que eu estou nuzinho!”. O homem que tinha trazido a roupa foi abri-la e abraçou-se nele. Tinha, assim terminado o fado do seu irmão. O dono da padaria teve sempre a protecção daqueles dois ricos proprietários.»
 «Os avós do Tio Tomás da Maia, da Rua do Norte, repararam que todas as noites, em certos dias da semana, vinha uivar à sua porta um cão rodeado de outros. Numa noite em que tinham o forno a arder e o espeto de furar as cortiças em brasa resolveram, cheios de ânimo, acabar com o fado daquele desgraçado, e pelo ferrolho da porta deram-lhe uma picadela. Dias passados, apareceu-lhes um homem com um carro de pão à porta, agradecendo-lhes por esta forma o terem-lhe acabado com o fado.»

Source GRAÇA, A. Santos O Poveiro Lisbon, Publicações Dom Quixote, 1998 [1932] , p.79-80

Place of collection Póvoa De Varzim, PÓVOA DE VARZIM, PORTO

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

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