[A Visão]

APL 1686

No me’ tempo, também em rapariga, ora isto já foi à muitos anos, um vizinho meu, morava mesmo ao pé da minha porta e eu todos os dias entrava lá e saía, na casa dele; tinha uma irmã que era muito minha amiga e então ele era rapaz e andava muito p’ros bailes do campo, ia p’ros campos aí ós bailes e vinha tarde. Uma noite, ele, contou ele já se sabe, ele uma noite passou p’ro olheiro, vinha daquele lado de lá, de fora da Fuseta, passou ali p’ros olheiros, à noite diz que aparecia coisas. Ele olhou, p’ra dentro do olheiro e viu uma mulher dentro de..., dentro de..., da água, dentro de, [dentro do olheiro], ao pé das pedras e começou assim a olhar mas na’ conheceu, começou assim [a olhar] à mulher, parecia, olha ele parecia que ‘tava vestida de branco e tinha um cabelo muito comprido, preto e ele teve a olhar, a olhar, mai’ o que ele s’alembrou duma rapariga que nesse tempo ia o olheiro às vezes de noite, a lavar roupa e ia de madrugada e essa coisa assim, como era costume antigamente. E ele como ela era, era lavade’ra, lembrou-se se calhar é ela que ‘tá ali dentro do olheiro, que se veio à ideia dele e chamou por ela, chamou, ela chamava-se Lorete:
 - Lorete, ó Lorete!
 E qual na’ foi o espanto quando aquela pessoa volta-se p’ra..., p’ra cima, p’rá estrada aonde é que ele ‘tava, parecia uma, parecia uma fada, parecia outra pessoa, não, não ali viu ele que não era a Lorete. Apanhou um susto ta’mém tão grande, deitou-se a fugir p’ra estrada a fora quando chegou a casa da mãe, a bater com força, com força, a pobre da mãe lá lhe veio abrir-lhe a porta e ele até quase que ia desmaiando com o [susto].
 - O homem, mai’ o que foi isso homem, o que foi isso?
 - Ai mãe, eu agora vim passei p’ro olheiro, na’ queira ver o que eu vi. Eu vi aquela pessoa quando olhou p’ra mim parecia uma coisa sobrenatural, uma fada, uma coisa assim, eu pensando que era a Lorete chamei-lhe por ela, olha, quando eu vi que na’ era, tive um medo, deité-me a fugir.
 Chegou a casa ‘tava qua’ morto, diz a mãe. A mãe no outro dia é que contou, a mãe e a irmã que [ele estava] quase morto de vir uma coisa daquelas, mai’ diziam que no olheiro apareciam coisas.

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a, , p.1995/96

Year1996

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

CollectorCarla Santana (F)

InformantFeliciana Sousa (F), 80 y.o., born at Fuseta (OLHÃO) FARO,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications