[As Três Pancadas]

APL 1687

Bom, diziam antigamente que havia ali nos olheiros que uma mulher tinha ido a, a lavar, era um grande dia santo — isso é que não me recordo — e então ouviam aquele..., sabiam que havia quem ouvisse nã’ é. Mas, a minha mãe foi mais outra mulherzinha e a minha avó, foram as três a lavar o enxoval. Foram, elas foram: a mulherzinha foi a chamá-las elas não sabiam [as horas], ou não tinham relógio, ou não olharam o relógio e quando ela chamou foram andando. Quando chegaram ali ao pé do olheiro, antes um pedacinho, antes de chegar ao olheiro ouviram três pancadas nas pedras como quem ‘tá lavando (‘tá lavando) a roupa. Dizia a ti’ Maria José de Sena:
 - Olha, então nã’ vês, já ‘tá lá gente, já ‘tá gente lá a lavar.
 Que a minha mãe ia um pouco assustada, que já achava que aquilo era muito cedo. E então depois andaram mais uns passos e outra vez as mesmas ditas pancadas.
 Dizia a minha tia Maria José de Sena:
 - Vês, vês já ‘tá lá gente, já ‘tão lá a lavar.
 Já ‘tão lá a lavar, e elas foram. Ao, (mesmo ao) pôr os pés em cima do olheiro as mesmas ditas pancadas, ali então ainda soavam mais, ainda soavam mais, pareciam mais fundas. Qual (foram) [foi] o espanto delas quando olharam, só via era a lua, que havia uma bonita lua e não havia uma, nem viv’alma. Aí, a minha mãe ficou cheia de medo e disse assim:
 - Olha… mãe, nã’ ‘tá aqui ninguém! Mãe, a gente vamos embora.
 - Não, vamos a lavar, vamos lá lavar — dizia a ti’ Maria José de Sena — aquilo não é que foi neste olheiro, foi no outro olheiro.
 E elas assubiram logo para cima de um valadinho que fazia ali, e que se avistava o outro olheiro e foram lá e nã’ viram nada ta’mém, nem viv’alma, aquilo é um silêncio qu’até metia respeito. Bom, elas começaram a pensar, a’tão vamos, vamos a’tão a voltar p’ra trás [mas uma disse]:
 - Não, já agora que estamos aqui vamos a lavar, que daqui a pouco elas começam a vir.
 Puseram-se a lavar a roupa, a lavar — aquilo era só p’ra passar por água porque era roupa do casamento da minha mãe — puseram-se à pressa, à pressa e vieram-se embora. Quando elas chegaram à Fuseta é que elas viram umas quantas pessoas que andavam a chamar, nã’ iam sozinhas, já com medo. A chamar esta e aquela, e aquelas vizinhas p’ra irem, p’ra irem p’ra lavar.

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a, , p.1995/96

Year1996

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

CollectorCarla Santana (F)

InformantFeliciana Sousa (F), 80 y.o., born at Fuseta (OLHÃO) FARO,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications