[O Sonho]

APL 1806

Isto é o que a minha mãe me contava, e a minha mãe viu as pedras, nã’ viu as pedras d’oiro mas viu-as. Que aquela mulher da Fuseta, assonhou a primeira noite aquele sonho, o sonho dizia:
 - Vai lá ao olheiro — e era aquele olheiro de cima, o primeiro olheiro, o olheiro de cima — e cava. Lá hás-de encontrar uma pedra e nã’ te assustes porque é a tua salvação.
 E então ela foi, sem nem ninguém saber, foi, foi, foi, cavou, cavou com muito medo, cavou, cavou e viu a dita pedra. E depois a outra noite assonhou o mesmo sonho, e ela foi outra vez e depois continuou a ir as três vezes; as três vezes e nã’ dizia nada a ninguém, e foi, e quando ela foi cavou, cavou, cavou e encontrou outra pedra. Mas aquelas pedras eram ouro, diz ela que aquilo brilhavam que era uma maravilha, as duas pedras, aquele ouro lindo, aquela coisa. Quando foi à terceira pedra, que ela ia apanhar a pedra, viu uns olhos a olhar para ela tão duma tal maneira qu’ela assustou-se, assustou-se e deu um grito e disse:
 -Ai!
 Ora ali apareceu-lhe aquele encanto, aquele homem e disse:
 - Ai, que (me) não me pudeste [salvar], não tiveste coragem p’ra me salvar. — Porque ele ‘tava já não sei se era cem anos ou que era que ele ‘tava encantado, e era a vêr se havia alguém que o desencantasse e fazia aquela pessoa feliz.— Eu não te mato porque vi que tu tinhas coragem, foste uma mulher corajosa fazendo uma coisa dessas, mas por pouco nã’ me salvaste e agora tenho de ficar outra vez encantado — aquela quantidade de cem anos, parece que era — até que apareça outra pessoa. Mas vai- te, mas eu podia ter-te matado aqui.

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Year1996

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

CollectorCarla Santana (F)

InformantFeliciana Sousa (F), 80 y.o., born at Fuseta (OLHÃO) FARO,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications