As Unhas do Trasgo

APL 1908

Conta-se em Sabrosa que há muitos anos uma mulher que vivia sozinha costumava ouvir, ao deitar-se, um pequeno espírito a gemer e a esgadanhar no soalho junto à porta do quarto. Contudo, mal acendia o candeeiro para ver o que era... ele calava-se. E ao voltar a apagá-lo, os gemidos e os ruídos continuavam. Por vezes, a mulher perguntava:
 — Tu que tens? Tens fome, tens frio?...
 Mas não havia resposta alguma. Pelo contrário, o espírito calava-se de novo, por momentos, para daí a nada voltar tudo ao mesmo.
 Uma noite de inverno, gelada e ventosa, a mulher compadeceu-se do pequeno espírito e propôs-lhe:
 — Já que estás aí cheio de frio, vem ao menos para aqui e agasalha-te debaixo dos cobertores!
 Foi o que ele quis ouvir. Num instante meteu-se com ela na cama, e logo os gemidos acabaram. Porém, passado um bocado, a mulher sentiu umas unhas afiadas a darem-lhe um beliscão nas nalgas, e tal bastou para que lhe viessem os fígados à boca:
 — Ah, Diabo duma figa! Vai lá mas é para o raio que te parta nos confins do Inferno!
 Em melhor hora não podia ter soltado tal maldição. Dali em diante, nunca mais a mulher ouviu quaisquer gemidos ou ruídos estranhos no quarto.

Source PARAFITA, Alexandre Antologia de Contos Populares Vol. 1 Lisbon, Plátano Editora, 2001 , p.208

Year1998

Place of collection Sabrosa, SABROSA, VILA REAL

InformantMaria Helena Parafita (F), 63 y.o., Sabrosa (SABROSA) VILA REAL,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications