O Diabo em forma de cabrito

APL 1919

Noutros tempos, ia muita gente de Peredo ao pão e às tortas a Espanha. Uma noite, um homem, a quem chamavam Flé, vinha de Espanha com o filho, Carlos, e quando iam a passar numa floresta da vizinha povoação de Morais, sentiu berrar um cabrito.
 — Ó Carlos, vê se o agarras que é um cabrito! — disse ele ao filho.
 Agarraram o animal, amarram-lhe as patas e meteram-no no meio da carga do pão. Ao chegarem à porta de casa, arrearam a carga, e, mal desapertaram as patas do cabrito para o pousarem no chão, diz ele:
 — Pousa-me devagar que me feres no cu!
 O Flé vira-se para o filho e diz:
 — Olha que é o Diabo!
 E largaram-no. O animal desatou a correr, que até fazia lume com os cascos, e não o viram o mais. Na madrugada do dia seguinte, ainda escuro, o Flé mais o filho iam para uma horta, que ficava junto à capelinha de Nosso Senhor dos Aflitos, quando ouviram berrar uma cabra. Diz o pai:
 — Ó Carlos, vai lá e dá-lhe com um sacho na cabeça. Pode ser que seja o Diabo.
 Ele assim fez e matou-a. Depois seguiram para a horta. No regresso, já de dia, viram que a cabra ainda lá estava, morta e bem morta. Diz o Flé para o filho:
 — Afinal, não era o Diabo! Vai lá e corta-a aos quartos, que havemos mas é de a comer!

Source PARAFITA, Alexandre Antologia de Contos Populares Vol. 1 Lisbon, Plátano Editora, 2001 , p.227

Year1999

Place of collection Peredo, MACEDO DE CAVALEIROS, BRAGANÇA

InformantAlbino Gouveia (M), 78 y.o., Peredo (MACEDO DE CAVALEIROS) BRAGANÇA,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications