[A imagem da Nossa Senhora]

APL 1922

 Então eu vou contar uma história, que tem uma parte verídica, e outra pensa-se que é lenda em relação à sua origem.
 É assim, a história passa-se no século XII para XIII na zona do concelho de Alenquer, em Portugal continental.
 Tinha a ver com um pastor, portanto era uma zona onde havia muito gado bravo, touros que pastavam na região chamada Montes de Alenquer. Essa região hoje, essa terra, chama-se Merceana que como era uma zona de grandes pastagens com “ganadarias” que ali havia.
 Havia um pastor que todos os dias um touro lhe faltava na manada. E esse  touro tinha o nome de Marçano.
 O pastor percorria montes e vales, todos os dias, à procura do touro.
 Até que um dia foi atrás do touro para ver onde é que ele se escondia. E acontece que encontra esse touro ajoelhado junto a uma árvore onde tinha, segundo se diz, que era a imagem duma pietá, duma Nossa Senhora com o Cristo ao colo.
 Entretanto essa imagem foi depois, digamos que, recuperada pelo pastor e ele com um canivete foi talhando, de certa maneira, aquilo que tinha visto. Portanto, o pastor recolheu essa imagem e foi levá-la para outro lado que era a zona do Arneiro.
 E acontece que o touro nunca mais foi a esse local.
 E levaram então, alguns problemas na altura, sobre se a imagem era verdadeira, se era de carne e osso ou não, e o pastor ficou para sempre guardião dessa pietá.
 Acontece que a Rainha D. Leonor, passado uns anos, a Rainha D. Leonor, como ia muito às Caldas  da Rainha o seu percurso era sempre por Alenquer.
 E um dia fez-se acompanhar de um bispo. Ouvindo falar nesta história, de que Nossa Senhora tinha aparecido a um touro e a um pastor, passou com o bispo nessa região, onde é hoje Merceana devido ao nome do touro que era Marçano, deu origem a esta terra que é Merceana.
 Acontece que encontrou, foi com o bispo ver essa imagem de madeira talhada e guardada sempre pelo dito pastor.
 Acontece que a lenda dizia que a Nossa Senhora era mesmo de carne e osso.
 E então a lenda reside no seguinte: dizem que o bispo pegou num alfinete, para mostrar a Rainha D. Leonor que não era de carne e osso, que era mentira esta história que se contava. O bispo agarrou num alfinete e espetou na imagem.
 Segundo a lenda, jorrou sangue dessa imagem e o bispo ficou cego.
 Então, a Rainha D. Leonor prometeu que se o bispo se curasse, para reparar essa falta de confiança do bispo, que mandava construir, mesmo naquele local, uma igreja.
 O bispo curou-se e a Rainha D. Leonor, mulher de D. João, mandou então construir uma grande igreja, que ainda hoje existe, datada do século XV (a primeira construção) em honra da Nossa Senhora da Piedade da Merceana.
 Essa igreja teve sempre honras, esteve sempre ligada aos reis de Portugal.
 Embora seja uma grande igreja em termos arquitectónicos foi sempre considerada, tinha todas as tenças e as regalias de capela real porque a Rainha D. Leonor sempre que passava para Caldas da Rainha (fazia parte da sua vida com as misericórdias, como todos sabemos), passava sempre por ali.
 Tinha uma grande devoção a esta igreja, a esta imagem da Nossa Senhora da Piedade, que ainda hoje se encontra venerada nesta região, nesta terra de Merceana, em que vários círios, várias romagens ao longo dos séculos têm sido feitas. E o círio, digamos, essa romagem mais antiga do país é a da Nossa Senhora da Nazaré que todos os anos vão à Merceana em romaria, ainda hoje.
 Foi a partir desta ermida, desta lenda mas misturada com alguma realidade, porque é verdade que estas pessoas tinham uma grande devoção à Nossa Senhora e a imagem lá está, o altar desta igreja foi construído em cima da raiz da árvore onde o touro tinha sido encontrado ajoelhado de fronte desta pietá.
 O pastor morreu e está também enterrado neste altar.
 E até hoje, século XXI, há uma grande devoção a Nossa Senhora da Piedade e a esta história muito bonita que dizem que esta igreja foi construída por causa de uma promessa da Rainha D. Leonor que se o bispo ficasse bom dos olhos por causa de ter tentado ver e picado uma imagem sacra.

Source AZEVEDO, Ana A Literatura Oral na Comunidade Emigrante Portuguesa em Montreal Faro, Universidade do Algarve, 2002 , p.# 56

Year2001

Place of collection Aldeia Galega Da Merceana, ALENQUER, LISBOA

InformantNelson Lemos Figueiredo (M), 42 y.o., born at Aldeia Galega Da Merceana (ALENQUER) LISBOA,

Narrative

When XII Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications