A menina que voltou à terra

APL 2019

Aqui, há uns quantos anos, morreu uma rapariguinha debaixo de um autocarro, que vinha a fazer a curva. A miúda vinha na estrada e o carro apanhou-a e matou-a. O autocarro. Ela era única filha; foi um grande desgosto. Mesmo antes que não fosse única filha seria um desgosto à mesma para a família. E então quando fizeram o funeral puseram uma pedra na campa, que tinha uma dedicatória. Foi paga por um patrão da mãe, essa pedra. E aquilo, pronto, não sei lá o que é que se passou e a rapariguinha a fim de tempos de ter morrido apareceu a um vizinho onde ia comprar o leite todas as noites. E então o vizinho estava um dia lá em casa e diz que viu ela ir. E diz-se que disse:
- Vem além fulana, mas ela já morreu. Como é que é possível? Não pode ser? Eu não estou bom da minha ideia. Está-se a passar alguma coisa comigo.
Aconteceu na outra noite o mesmo e ele viu outra vez a miúda, directamente à casa dele, como quem ia buscar o leite como todas as noites. E então ela um dia procurou um centro espiritual, a alma dela, e falou nesse centro espírito. Dizendo que não podia ir para Deus porque tinha uma pedra em cima da campa dela, que tinha uma dedicatória que ela não podia seguir para Deus. E que tirassem essa pedra de lá, que ela só lhe faltava isso para subir para Deus. Para que Deus perdoasse para ela subir. Então, ela depois, quando ela falou isso nesse centro espírita, […] tiraram a pedra. E a pedra tinha a dedicatória que era assim:
- A minha vida ceifada pelo carrasco da maldição. Junto de Deus estarei. Nunca te darei o perdão.
Quer dizer a dedicatória estava como se fosse ela a fazer aquela dedicatória. Mas foi alguém que pagou para fazer a dedicatória, que ela não tinha nada a ver com isso. Só que ela para entrar no reino dos céus, para entrar para Deus, ela ou outra pessoa qualquer, tem que perdoar. Para que Deus a perdoasse a ela também. E Deus disse-lhe que viesse ela cá a baixo que não tinha entrada no reino dos céus por causa disso. Que não queria dar o perdão ao homem e o homem, que ia a conduzir o autocarro, tinha-a matado sem querer. Ninguém mata ninguém por querer. E então ela para subir teve que fazer esse pedido. Teve que descer a este planeta e pedir perdão, pedir para tirarem essa pedra, para que ela novamente pudesse ir.

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Year2005

Place of collection Portimão, PORTIMÃO, FARO

CollectorCátia Romão (F)

InformantMaria Esmeraldina Pacheco dos Reis (F), 62 y.o., born at Silves (SILVES) FARO,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications