O Mistério

APL 2020

Quando era miúda a minha mãe contava que havia uma pessoa de família dela que tinha sempre por hábito cozer ao domingo. Durante a semana andava nos campos, fazendo a vida dela e ao domingo era quando fazia o pão. Fazia o pão nos fornos que tinha ao pé da casa, para comer a semana inteira que se seguia. Ninguém ia às padarias nem havia, nos campos, padarias.
E, então, aquela pessoa de família da minha mãe […] tinha por hábito cozer ao domingo. Estavam em casa, um dia, e tinham o pão no forno. O forno ficava ao lado da casa e ouvem assim um urro qualquer. Um barulho estranho. E o que foi isto, o que foi? Foram todos ao pé do forno. O forno já estava com o pão para cozer. Põe-se o pão no forno e levasse uma hora no forno para cozer o pão. Quando chegam ao pé do forno, qual não foi o espanto deles a ver o forno a arder. Parecia que estava o forno a arder a lenha para pôr novamente o pão. E ficaram todos a olhar uns para os outros. Mas então o que é isto? O que é que se passou? Metemos o pão no forno e o forno está a arder. Como é que é possível? Foi mistério, deve ser qualquer coisa por causa de ser domingo. E ficaram todos amedrontados com medo. Foram para casa a pensar naquilo: “o que seria, o que é que não seria?”. Dali mais um tempo voltaram novamente ali ao pé do forno e, estava o pão tal e qual como se não tivesse o forno ardido.
A partir desse momento ninguém acendeu o forno ao domingo. Nunca mais se cozeu ao domingo. Acreditam como se fosse o domingo o dia do Senhor, que não é para fazer um trabalho daqueles. Não deviam cozer. Podiam cozer à semana. […]

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Year2005

Place of collection Silves, SILVES, FARO

CollectorCátia Romão (F)

InformantMaria Esmeraldina Pacheco dos Reis (F), 62 y.o., born at Silves (SILVES) FARO,

Narrative

When XX Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications