O milagre de Nossa Senhora das Relíquias (Versão 1)

APL 2081

Reinando neste reino o Sereníssimo Rei D. Afonso V, em torno da vila de Vidigueira havia uma povoação pequena, em que ainda hoje há dois moradores e se chama ao monte dos Alfaiates; vivia nela um lavrador, por nome Pedro Afonso, casado com Margarida Fernandes, e tinham uma filha chamada Maria, que o seu exercício era guardar o gado. Em uma manhã de muito frio lhe disse a mãe que fosse conduzir para o sítio conveniente, ao que ela não duvidou; mas pediu lhe desse pão para almoçar, e como o não tivesse e estivesse para amassar, a persuadiu se fosse, e quando voltasse lho daria. Obedeceu a filha, e pastorando o gado até chegar àquela várzea, se assentou debaixo de um zambujeiro; mas como a fome a apertasse, se pôs a derramar muitas lágrimas e a repetir soluços entre os quais teve a fortuna de ouvir uma voz, que lhe perguntou porque chorava; ao eco levantou os olhos e viu sobre o zambujeiro uma senhora cercada de luzes celestiais, que lhe tornou a inquirir qual era a causa da sua aflição, ao que satisfez, referindo o que lhe tinha sucedido com a sua mãe.
 A Virgem Senhora Nossa, que em sua imagem lhe apareceu e fez aquela pergunta, depois de a ouvir, lhe mandou fosse a casa, porque ela lhe teria cuidado do gado até que voltasse, e que pedisse outra vez pão a sua mãe, e que se ela lhe respondesse ainda não o tinha, lhe dissesse fosse ver a arca, que se o não achasse, ela tornaria para o gado contente sem ele. Foi a venturosa menina para casa, e pedindo pão à mãe, lhe respondeu esta que ainda não o tinha amassado; suplicou a filha com a instância que a Senhora lhe tinha dito, o que ouvindo a mãe, a levou dentro à casa em que estava a arca para a desenganar, como quem tinha certeza de que não havia nela pão; e abrindo-a para que a filha visse era verdade o que lhe dizia, ficou admirada de a ver cheia, quando sabia que nela não havia nenhum, e inquirindo a menina quem lhe dissera que na arca havia pão, lhe referiu o que lhe tinha sucedido; e inferindo do que ouvia contar a filha que naquele sucesso havia prodígio grande, deu logo parte ao marido e aos poucos vizinhos que ali moravam, e todos assentaram que fossem ver quem tinha falado à menina para que lhe disseram os guiasse ao lugar, e chegando a ele, apontando com o dedo, lhes mostrou a Senhora em cima do zambujeiro, dizendo para a mãe, aquela é a Senhora que me disse tínheis pão e que me mandou vo-lo fosse pedir, porque ela entretanto me guardaria o gado.
 Todos os que vieram a examinar o que a menina referia tiveram a fortuna de ver a Senhora muito resplandecente, e admirados do prodígio, se prostraram todos por terra, e ficando uns reverenciando aquele prodígio celeste, mandaram outros participar esta noticia à povoação mais próxima, a qual então era muito limitada e agora é a vila da Vidigueira.
 No mesmo dia foram ao monte dos Alfaiates a ver o prodígio do pão, e depondo todos os da casa que nela não havia, o tiveram por milagroso, e repartindo parte dele pelos que se acharam presentes, ficou ainda para os que depois vieram, e todos o estimaram como relíquia.

Source AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Year2006

Place of collection Vidigueira, VIDIGUEIRA, BEJA

CollectorMargarida Tasquinha (F)

InformantMaria Janeiro (F), 50 y.o., Vidigueira (VIDIGUEIRA) BEJA,

Narrative

When XIV Century,

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications