[A imagem barbeada]

APL 2173

Notara-se em antigos tempos que as faces da imagem do Senhor Jesus se cobriam de tempos a tempos de um finissimo pello, que a ensombrava visivelmente. Para obstar ao seu maior crescimento estava encarregado um piedoso barbeiro de o cortar semanalmente. Faleceu o barbeiro e foi substituido por outro, que não possuia as qualidades respeitosas do seu antecessôr. Na primeira occasião que este barbeiro foi chamado a exercer o seu oficio, despontando o pello que cobria as faces do Senhor, procedeu tão desrespeitosamente, que logo cahiu fulminado. D’esse momento em diante não mais se repetiu tão extraordinario fenomeno, e ainda hoje as faces da veneranda Imagem se conservam como no momento em que o barbeiro recebera o castigo; uma um pouco ensombreada a outra como limpa e barbeada n’aquelle momento.
 Esta lenda corria ainda entre os annos 1828 o 1834, pois que n’essa epoca foi colligida por pessoa de nossa familia; hoje, porém, obliterou-se e tendo nós encarregado o actual reverendo paroco de novamente a colligir, não lhe foi isso possivel, por ser actualmente ignorada.
 Já em outro livro tínhamos escrito: «Antigamente o pae de familia sentado á lareira nas frigidas noites do inverno, no centro da familia, fazia as vezes de patriarca da antiga lei, e no meio de geral silencio contava aos filhos, netos e serviçais tudo o que constituia a historia da sua região, de modo que os factos historicos e as lendas por este processo se radicavam na memoria do nosso povo. Hoje, porém, as exigencias sociaes, a facilidade dos transportes pelo encurtamento das distancias, a rapida transação do seio da familia para outros centros e finalmente o pasmoso estreitamento das relações commerciaes, fóra e dentro do paiz, afrouxaram de tal modo o vinculo da familia, que as nossas lendas, perdendo o caminho tradicional, refugiaram-se na cançada memoria de algum velho caturra, que já não encontra quem de tais lendas queira ser depositario».
 Assim succedeu a esta lenda, e assim succederá a muitas outras de que ainda hoje restam vestigios respeitosos.

Source OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde A Monografia de Alvor Faro, Algarve em Foco, 1993 [1907] , p.200-202

Place of collection Alvor, PORTIMÃO, FARO

Narrative

When XIX Century, 20s

BeliefUnsure / Uncommitted

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