A lenda da fonte mouro

APL 242

A Nordeste da cidade de Beja, a pouco mais de meia hora de caminho, a pé, ainda hoje há uma horta cuja fonte de boa água fresca corre de noite e de dia para um barranco. Chama-se da Fonte Mouro e junto dela passa um caminho vicinal.
 Diz-se que a dita horta fora outrora de abastado mouro de nome Albutassén, que havia de sua esposa Judith uma formosa e gentil filha chamada Aldonça.
 Pouco temente a Allah, Albutassén era rico mas mui avarento e mau. Porém, sua filha Aldonça, a antítese do pai, era bondosa, desprezava as riquezas e muito crente em Allah.
 Em idade de noivar e com tendências afectuosas, ela vivia recolhida em casa entregue a trabalhos domésticos e outras ocupações próprias da sua condição de jovem moira. Raro consentia seu pai que Aldonça se afastasse de casa a ir a alguma festa ou a assistir nalguma mesquita aos sagrados ritos e devoções em honra de Allah.
 Em todo este termo corria fama de seus excelentes dotes físicos e morais, o que mais atraia as atenções e curiosidade dos jovens cavaleiros que tinham a dita de contemplar tão excelsa como encantadora e formosa moira.
 Dada ao afecto amoroso, a bela Aldonça votava particular atenção a um jovem cristão de nome Atanásio que, embora pobre e de crença diferente da sua, possuia, contudo, excelentes dotes morais e de carácter que faziam inveja a seus companheiros, alguns nobres e ricos cavaleiros.
 Sabendo das tendências amorosas da filha, Albutassén mais ainda a contrariava e, raro, consentia que ela saísse da horta onde vivia, triste e contrafeita, entregue às suas chorosas penas.
 Um dia pensou o jovem moço Atanásio raptar a mulher de seus sonhos e encantos mais caros, visto doutro modo ser-lhe impossível possuir aquela que tanto amava. E, numa noite clara de Agosto, em que a lua estendia sobre a terra seu manto de luz, o moço cavaleiro, montando em seu ginete fogoso, dirige-se à horta onde já o esperava, impaciente e nervosa, a formosa Aldonça. Os olhos dela eram as noites negras estreladas, e o seu cabelo em ondas como as do mar, tinham a cor do azeviche.
 Ao ver o seu bem amado, transbordante de alegria, mas nervosa, a jovem moira ajoelha, volve ao céu o doce olhar e, numa prece fervorosa e breve, pede a Allah misericórdia e perdão do seu plano de fuga. Passaram-se alguns segundos. Junto de si chegou o moço cristão que a arrebatou e, sentando-a na sela, à sua frente, corre veloz no fogoso ginete.
 Allah, que sabe dos desígnios dos homens, não podia consentir na fusão de duas crenças diferentes. Não favoreceu, por isso, ao cristão a sua amorosa aventura e nem à jovem amada a felicidade que tanto desejava. Então, com o seu poder divino, fez que o cristão se mudasse em serpente, e ela, Aldonça, se transformasse numa fonte de água cristalina.
 Diz a lenda que há quem tenha visto, em noites de luar, a enorme serpente ir junto da fonte beber nela as longas saudades de Aldonça (1).

(1) Lenda! Verdade? Fantasia? Sou o que for, o que é indubitável é que a horta e a fonte existem e, mais ainda, perto dela, um «monte» chamado da cobra, certamente com origem tradicional na dita cobra. 

Source DELGADO, Manuel Joaquim A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo Beja, Assembleia Distrital de Beja, 1985 [1956] , p.230-231

Place of collection-, BEJA, BEJA

Narrative

When XX Century, 50s

BeliefUnsure / Uncommitted

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