O penedo vazado

APL 271

Já se passaram alguns séculos quando isto teria acontecido...
 Um humilde lavrador de Eiris partira com o gado para as bandas da Citânia. Vigiando a vaca, as chibas e as ovelhas, por lá ficava até à hora da merenda.
 Acontecera, porém, que a turma, em certas ocasiões, desaparecia por artes do mafarrico e o pobre homem, se não dava em doido, pouco faltava. O mais engraçado é que, apenas ele se zangasse e praguejasse, logo a vaca, sossegada e farta, lá vinha por entre as tojeiras e giestas do penedo vazado.
 Que havia feitiços, por ali, havia!... Quem lhe tirava do miolo ver a “pinta”, bem na frente dos olhos, sumir-se pelo chão abaixo?
 — Vem cá, toma!... Estrenoquelho assim!... — resmungava o lapónio, persignando-se dezenas de vezes.
 Mas daí nasceu uma ideia: agarrar-se ao rabo da vaca e não a largar mais, ainda que lhe custasse a vida. 

— Não há como a gente ver como estas coisas são...
 Agarrou-se imediatamente à cauda da turina e ela, aos pulos medonhos, em corrida desordenada, fez o lavrador suar e tressuar. Mais teimoso ainda, apertava com quantas forças tinha o rabicho duro e peludo. Num salto violento, o animal afocinhou por um silvado e enfiou por longo corredor muito escuro, levando o dono ora aos trambulhões ora de rastos. Mil voltas deram. Foram parar a lindo palácio. O chão era coberto de ricos tapetes e do tecto pendiam pingentes de oiro e de cristal. É claro que o receio de perder a vaca ou ali ficar estarrecido impediam o lavrador de recolher parte daqueles maravilhosos tesouros.
 Passados escassos segundos, apareceu uma velha muito feia e magra. No seu largo vestido de seda preta, causava medo. Vinha com uma escudela tirar leite à vaca. Esta ficou quietinha assim que a viu. Os olhos pequeninos da velha e os cabelos brancos encrespados completavam aquela horrível feiticeira, que o era com certeza... Vá lá que não reparara ela, ao menos, no pobre viajante que a vaca tinha arrastado!... Se o visse, não sei o que seria...
 Cheia a vasilha, a vaca largou em nova corrida por luras de breu. Todas as riquezas lá ficaram ao fundo daquela mina do penedo vazado, pelos tempos fora...
 O bom do lavrador, assim que se viu são e salvo, correu atarantado pelas bouças que se estendem para Vilar e não quis mais saber da sua turina. Conta-se, a propósito, que, ainda hoje, em noites de luar, a vaca aparece a pastar na meia encosta da Citânia... mas agora vigiada atentamente por uma encantadora donzela que vive à certa no tal palácio encantado...

Source AA. VV., - Douro Litoral, 5ª Série, IX n/a, s/ed., 1953 , p.68

Place of collection Eiriz, PAÇOS DE FERREIRA, PORTO

Narrative

When XX Century, 50s

BeliefUnsure / Uncommitted

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