Lenda das amendoeiras

APL 698

Diz a lenda que existiu
Dinorah, filha de Aghar...
Por terras d’aquém não houve
Moira de tanto encantar...

Seus olhos eram da cor
Duma noite sem luar...
Outros que neles pousassem
Não tinham que descansar...
 
As ondas dos seus cabelos,
Aloirados, cor de ambar,
Não as tinham tão suaves
As águas do verde mar...

Aos seus lábios, o carmim,
As rosas foram roubar...
Sua voz.., eram as aves
Que se punham a trinar...

E vivia tristemente,
Que triste era o seu penar...
Ter olhos assim tão belos...
Tê-los só para chorar...

Ter no peito um coração
Feito apenas para amar...
Tê-lo.., mas ai!... não haver
A quem o fosse entregar...

Mas uma tarde... uma tarde...
Como?... não o sei narrar...
Apar’ceu um trovador
Que, ao vê-la, pôs-se a cantar:

“Morena duns olhos pretos
 “Tal a noite sem luar,
morena linda, dize
“Em que te posso ajudar?!...”

“Cavaleiro, já que podes,
 “Dá-me um véu para noivar...”
Assim falou Dinorah,
Era triste o seu falar...

Partiu gentil cavaleiro,
Em fogoso galopar...
Partiu... não, sem que pudesse
Ainda ao longe escutar:

“Eu hei-de, para castigo,
“Juntos, os dois encantar...
 “Não fala a gente cristã,
 “Dinorah, filha de Aghar...”

Foi Allah que das esferas
Se fez assim escutar...
Mas ia já longe aquele
Tão fogoso galopar...

Alta hora da noite ouviu-se
Um alaúde trinar...
E a voz suave de alguém
Que o andava a acompanhar...
 
Quando, ao outro dia, à moira
O sol a foi acordar,
Seus olhos negros que viram?...
Qual foi logo o seu fitar?...

Um abraço gentil que estava
Do outro lado a acenar...
E tudo ao redor eram
Pét’las brancas de noivar...

Ia-lhe ela agradecer,
Ia para lhe falar,
Mas eis que se muda em fonte
Seu corpo de b’leza impar...

E o corpo dele, coitado,
Foi-se em lago transformar...
- Desde então andam os dois
Correndo, juntos, p’r’ó mar...
 
E as flores?!... Essas em nada
Allah as pôde mudar...
Que mal chega Fevereiro
Andam por ‘í a noivar...

* *
Foi esta a história linda
Que o Tempo me veio contar...
Rimance de amendoeiras,
Pét’las brancas de noivar...

Source LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.9-12

Place of collection-, FARO, FARO

Narrative

When XX Century, 50s

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