A lenda da fuzeta

APL 699

Diz a lenda... era uma vez,
Em tempos que já lá vão,
Que ao pé do mar existiu
Terra de vinho e de pão.
 
Era ali que à noite vinham,
Ao som do vento suão,
Falar em rezas de amor
Mulher moira, homem cristão.

Ela, a moira, era bonita,
Como as bonitas que o são...
E tinha raios de luz
No fundo do coração.

Tinha pedaços de lua,
Na palma de cada mão;
Tinha na garganta a voz
Do mais fino violão.

E dele, que diz a lenda?
Que reza desse cristão?
Que era o homem mais perfeito
Que no reino havia então.

De antes quebrar que torcer
Era-lhe a fé de cristão,
Que talvez houvesse igual,
Mas maior que a dele... não!

E tinham assim juntinhos,
Um ao outro, o coração
Por noites de inverno frio,
Por quentes dias de v’rão.
 
As águas, junto ao ribeiro,
Tinham vozes de canção,
Que vinham, ‘té perto deles,
Sorrir às ervas do chão.

E outro amor nunca se viu,
Tão belo e forte, pois não,
Que era a moira sempre amada
Nos braços do homem cristão.
 
Mas Allah, que dormitava,
Dos mundos na solidão,
Disse que não casariam
Mulher moira e homem cristão.

Logo ali os encantou,
Sem mais dó nem mais perdão.
— Junto ao mar nasceu FUZETA,
Terra de vinho e de pão.


* *
Portanto, se não me engano,
Nem a lenda me enganou,
Há talvez duzentos anos
Que Allah o sonho quebrou...

Source LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.13-14

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

Narrative

When XX Century, 80s

BeliefUnsure / Uncommitted

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