A lenda dos olhos de água e da barra da fuzeta

APL 717

Se há lendas do tempo antigo
Que a nós nos fazem pensar,
Esta agora que vos digo
É daquelas de encantar.

E não só... de entristecer...
E das muitas, certamente...
Foi há tanto... vamos ler
Histórias duma outra gente.

Por esta terra de aquém
Que Fuzeta foi chamada,
Linda moira, que era alguém,
Ficou p’ra sempre encantada.

Era alguém, por ser infanta,
Inda que fosse islamita;
Era deusa ou uma santa
Daquela raça maldita,

Que, se Zhagma professava
As tais leis do Al-Corão,
Aos mais pobres entregava,
Com risos, seu coração.
 
E dava, com o dinheiro,
O trigo de cada pão,
E, ao seu povo aventureiro,
O vinho, por sua mão.

Quando aos seus jardins saía,
Para colher uma rosa,
Uma alegre cotovia
Vinha logo, pressurosa,

Pousar nos ombros morenos
Daquela infanta real,
Cujos olhos agarenos,
Brilhantes como cristal,

Agradeciam, chorando,
Os afagos da avezita
Que bebia, doce e brando,
O choro da islamita...

Porque a infanta chorava
Como outra qualquer mortal,
Pois tinha no peito a lava
De algum vulcão infernal.
 
Era o amor que transbordava
De um coração de mulher,
Que há muito em si o guardava
P’ra o entregar, por mister,

A alguém que o merecesse
Por sua honra ou valentia,
Fosse quem fosse ou viesse
De além da hora do dia.

Podia ser infiel
Por ser um cristão, talvez...
Não importava, se aquele
Fosse um forte Português.

Podia ser um irmão
Da sua raça mourisca...
Alguém que à luz do Corão
A tomasse uma odalisca.
 
E levava as horas nisto,
Essa infanta casadoira,
Renegando a Jesus Cristo,
Por ser levantina e moira.
 
‘té que um dia, há sempre um dia,
Em cada alma enamorada,
Ela viu da alcaçaria
Uma forte cavalgada

Acercar-se do castelo,
Em remoinhos de pó.
À frente, que homem tão belo
Às paredes se achegou!

E pondo a mão em funil
Sobre o seu lábio tão fino,
À luz do sol desse Abril,
Assim falou de contino:

“Moira virgem que vieste
“Mais de além dum outro mar,
“Por tarde de vento agreste
“Ou por noite de luar,

“Se acaso não és nascida
“Já na terra do Chenchir,
“Vem até mim, minha qu’rida,
“Dá-me o teu lindo sorrir...

“Vem, que tenho p’ra te dar
“Toda a riqueza da terra,
“E um coração para amar,
“Que te livre desta guerra...

“Vem!... vem, Zhagma, meu amor!...”
Mais não disse o português,
Afagando, sedutor,
As peças do seu arnês...
 
Logo a moira, descuidosa,
Cabelos soltos ao vento,
Exprimiu, ali, chorosa,
O seu triste pensamento:
 
“Se me queres, rei cristão,
“Por tua esposa e rainha,
“Vem trazer-me à minha mão
“A água toda inteirinha.

 “Que há-de haver em todo o mar...
Assim falou a princesa
Ao chefe do cavalgar
Dessa gente portuguesa.
 
Partiu de ali, de repente,
A fogosa cavalgada,
Levantando o pó ardente
Que cobria aquela estrada.
 
E chegou-se à beira-mar,
Onde, em tempo muito breve,
Principiou a cavar,
Mais cél’re que quem descreve,

Um canal que assim levava
As águas do grande mar
Aonde a moira habitava,
Que era coisa de pasmar.

Numa só noite findou
O trabalho ali proposto,
E a água do mar chegou
Ao outro dia, ao sol-posto,

Ao solar da moira Zhagma,
Onde uni paredão se erguia,
Que par’cia um diafragma,
À luz vibrante do dia,

P’ra prender a água toda
Que vinha de além do mar...
E ali mesmo, em toda a roda,
Alguém se pôs a cantar:
 
“Tens aqui o que pediste,
“Princesa, filha de Allah...
“Não te quero mais ver triste,
“Mulher que Deus me dará...

Vem a meus braços, infanta
“Do Reino de Portugal...
“Toda a natureza canta
“Este feito sem igual...”

Ia-se já entregar
Zhagma ao valente cristão,
Quando ouviu o ribombar
Dum fortíssimo trovão.

Era Allah, que tudo vira
Com olhos de deus supremo...
E, jamais isento de ira,
Pô-la ali em grande extremo.
 
“Vou encantar-vos os dois
“Em prémio de feia acção.
“Pois nunca, à luz dos meus sóis,
“Pode amar homem cristão

Mulher nascida agarena,
“E a partir deste momento
“Eu vos dou, por negra pena,
‘Este duro encantamento:

“O rio será secado,
“Mas, por ti, filha cruel,
“Há-de ser alimentado
“Com teu choro de infiel.

“Tu, cristão, hei-de encantar
“Doutro modo, é minha ideia:
“Hás-de ser deitado ao mar,
“Já desfeito em grãos de areia”.

* *
E cumpriu-se o encantamento
Que sempre aflige a Fuzeta,
Pois vive até ao momento,
Mesmo que pareça peta.

Da moirinha a grande mágoa
Do choro contínuo e brando,
Traduziu-se em “Olhos de Água”
Que vão aos poucos secando.

E a areia posta no mar,
Em silêncio, sem fanfarra,
É que anda agora a fechar,
Dia a dia, a velha barra.

Source LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.128-135

Place of collection Fuseta, OLHÃO, FARO

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

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