A Cova da Moura

APL 889

Em tempos que lá vão, quando os mouros e cristãos ainda viviam próximos uns dos outros, apesar de inimigos, uma bela Moura ficou perdida de amores por um jovem cavaleiro cristão. Da janela do castelo, lá na atalaia, onde seu pai era senhor, fixava a pobre da Moura o horizonte, na ânsia de ver a sua paixão. Só se tinham encontrado em segredo, pela calada da noite, com medo de serem vistos.
 Com o passar do tempo, o amor entre eles foi crescendo de tal maneira, que já não suportavam a ausência do outro, nem os fugazes encontros as escondidas! Por isso, apesar de saberem o quanto isso era difícil, resolveram revelar ao pai da jovem o segredo do amor que partilhavam, para que este autorizasse o casamento.
 O chefe mouro nem queria ouvir o que a jovem filha lhe pedia! Casar com um cristão? A filha tinha de certeza perdido o juízo por completo! Não pertencia o pretenso noivo ao inimigo e a outra fé? Como podia aceitar tal casamento?
 Ao princípio ainda pensou que aquilo era desvario da juventude, e da força da primavera que se iniciara em plena pujança. Por isso deixou passar algum tempo para ver da perseverança do desejo. Mas o tempo passava e a filha cada vez mais se agarrava aquele cavaleiro que lhe importunava a porta. Usou todas as artimanhas para que a paixão desaparecesse, desde alertar os guardas para não deixarem aproximar-se o cristão, ate fechar a pobre da donzela moura na mais alta das torres do castelo. Nada conseguiu!
 Esgotadas as tentativas para convencer a filha a deixar esse amor, resolveu o chefe mouro chamar uma mulher das redondezas, que diziam ter grandes poderes. Depois de lhe contar o que pretendia, confiou a bruxa o remédio para tão grande mal de amor.
 Introduziu-se a bruxa nos aposentos da jovem moura, para lhe conquistar a confiança e a convencer a colocar uns brincos que trazia consigo. A donzela ainda negou a oferta, desconfiada da aparência da mulher que a visitava, mas quando lhe disseram que os brincos lhe iam ficar muito bem, porque ela era muito linda, e que os brincos eram mesmo talhados para o seu rosto, lá aceitou, por entre um sorriso de vaidade. Quando estava a acabar de prender o segundo brinco, a bruxa disse umas palavras estranhas para enfeitiçar a pobre da moura. Naquele mesmo instante a bela jovem transformou-se numa horripilante cobra!
 A partir daquele dia nunca mais a moura foi vista pelo jovem cavaleiro que, por isso, morreu de desgosto! Diz o povo que há quem tenha visto uma cobra muito estranha pelos lados da Atalaia. Também há quem diga que, uma vez por mês, em noites de lua cheia, aparece um linda jovem com uns belos brincos, na Praia da Lenta, num local onde existe um cova, que, segundo dizem, liga o rio à Atalaia. Têm-na visto ali a lavar, esquecendo-se por vezes de uma ou outra peça das suas belas e ricas roupas.
 Muito mostram pena da moura e do seu fado, por ter desejado um amor que lhe era proibido. Todos acreditam que quem conseguir tirar os brincos das orelhas, lhe acaba o feitiço que a maldita da bruxa lhe impôs! Até hoje ainda ninguém conseguiu tal feito, permanecendo a pobre de moura no encantamento de antanho!

Source CAMPELO, Álvaro Lendas do Vale do Minho Valenca, Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002 , p.195-197

Place of collection Cornes, VILA NOVA DE CERVEIRA, VIANA DO CASTELO

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

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