A praga dos gafanhotos e das formigas

APL 941

Segundo a lenda, existiu antigamente, perto do lugar onde hoje se encontra Castanheiro do Sul, uma povoação com o nome de Arais, cujos moradores viviam exclusivamente da agricultura. 
 Não eram ricos, mas também não eram pobres. Tinham um nível de vida razoável, atendendo à sua actividade que sempre foi considerada a arte de empobrecer alegremente.
 Era o que se podia chamar áurea mediocridade, pois, apesar dos seus modestos recursos, viviam felizes porque eram todos amigos e unidos.
 Mas, um dia, desaguisaram-se por mor dumas águas que eram comunitárias. E então tudo mudou: deixaram de se falar, deixaram de se ajudar nos trabalhos até aí feitos em comum, e passaram a andar sempre envolvidos em disputas e zaragatas.
 E, como uma desgraça nunca vem só, um terrível flagelo abateu sobre eles, tornando-lhes a vida um inferno insuportável.
 Nuvens de gafanhotos, tão densas que escureciam o sol, vinham de todos os lados e caíam sobre as culturas, devorando sofregamente folhas e frutos e deixando os troncos nus que acabavam por secar.
 Até as pessoas tinham dificuldade em circular pelos caminhos, porque os invasores, em voos rasteiros, lhes fustigavam e maceravam as faces.
 E, como não há duas sem três, apareceu também a praga das formigas que saíam aos milhões das entranhas da terra, invadiam as casas, os leitos, as panelas da comida e matavam as crianças e os animais.
 Nessas condições, a vida tornou-se impossível; os que puderam fugir daquele inferno, foram construir uma nova povoação, que é a actual vila de Castanheiro do Sul.
 Depois de se instalarem nas suas novas casas, resolveram levantar um majestoso cruzeiro, com a imagem do Senhor Crucificado, lá bem no alto, para abençoar toda a povoação e afastar para bem longe a praga dos gafanhotos e das formigas de tão má memória.
 Então, a vida regressou à normalidade anterior: retomaram a lida comunitária no amanho dos campos e tudo corria às mil maravilhas. A desgraça tinha-os unido de novo e restabelecido a harmonia perdida.
 Mas as novas gerações não gostavam da localização do seu querido cruzeiro, por estar fora do povoado. Entendiam que ficaria melhor no largo terreiro, ao centro da aldeia, e trasladaram-no para lá.
 Em má hora o fizeram: imediatamente reapareceu a terrível praga dos gafanhotos e das formigas, ainda mais devastadora que a primeira. Curiosamente, os vorazes insectos só atacavam os sítios donde não se via o cruzeiro, poupando os outros que podiam ser vistos pela imagem do Senhor Crucificado.
 Concluíram, por isso, que era castigo provocado pela mudança do cruzeiro.
 Apressaram-se então a mudá-lo para o lugar onde tinha estado e foi um mal vai-te embora: desapareceu a terrífica praga, num abrir e fechar de olhos.
 Ainda hoje os habitantes de Castanheiro do Sul acalentam o sonho de ver o seu cruzeiro no largo principal da vila, mas não se atrevem a mudá-lo, com receio de que voltem os gafanhotos e as formigas.

Source FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.150-151

Place of collection Castanheiro Do Sul, SÃO JOÃO DA PESQUEIRA, VISEU

Narrative

When XX Century, 90s

BeliefUnsure / Uncommitted

Classifications