A bruxa Inácia da Córte

APL 463

Tenho uma também passada com o mê pai, Deus o tenha na Glória e à minha mãe, que o mê pai morreu fiquei eu pequenina.
 Morava ali num sítio chamam-lhe o Monte da Córte, que é ali mais p’ra lá, diz que tinha uma tia debaixo do mesmo telhado dele que era bruxa e diz que matou uma irmã das minhas. Era pequenina, mas que era tã linda, tã linda a criança. Mas eles nunca pensaram isso logo que a criança morreu, eles na pensarani que fosse a bruxa que a matasse.
 Mas a minha mãe diz que tinha lá um rabanho de pintainhos e o mê pai abalava p’ró trabalho, ela alevantava-se e ia lá fazer o governo dela, tratava dos pintainhos e os pintos começavam a engavelar. Engavelavem todos.
 E essa fulana, diz que era a Inaiça da Córte, dizia ó sobrinha, joga água p’ra cimba.Vai buscar água e joga aí umas bacias de água p’ra cimba, que eles desapartem-se. A minha mãe ia buscar a água, extrapunha por cimba dos pintos, e os pintos iam e dêxavem-se.
 Vinha outro dia e acontecia isso à mesma. Bom, a minha mãe, quando vinha à noite o mê pai contava olha os pintos onte fizerem isto assim e assim, hoje já fizerem outra vez, o qu’é que a gente há-de fazer.
 Disse ele olha eu ‘tive conversando com uma pessoa e essa pessoa contou-me que a minha tia que é bruxa. E deixa estar que eu amanhã espi’á.
 O mê pai fez que se ia embora e foi-se esconder p’ra lá num córrego onde é que havia um poço que tinha água donde a gente gastava.
 A minha mãe alevantou-se, lá foi fazer o governo dela, lá foi soltar os pintos, e os pintos engavelarem outra vez. A outra disse ó Maria vai buscar água e joga por cimba dos pintos. A minha mãe disse olhe nem água eu tenho em casa, só esta que tinha na bacia. Joga mesmo essa, mulher, olha, agora vou-me à água, queres ir cômigo? Ela disse na vou-me, já vou mai logo. E a outra abalou e foi à água.
 O mê pai estava escondido à espera dela, assim como viu ela ir tirar o baldinho da água corre p’ra ela. Ela, assim como o viu vir, fugiu. Fugiu lá por aqueles montes, mas o mê pai foi atrás dela e apanhou-a. Deu-lhe tanta tareia, tanta tareia! Ela dizia ai sobrinho na me batas mais qu’eu já na faço mal. Na me batas mais, sobrinho, qu’eu já na faço mal. E atão confessou que tinha tambem feito a bruxaria p’ra matar a minha irmã, O mê pai inda lhe chegou mais, mas por fim dêxou-a, senão matavá.
 Nunca mais os pintos engavelarem e nunca mais fez mal nenhum.

Fonte Biblio TENGARRINHA, Margarida Da Memória do Povo Lisboa, Colibri, 1999 , p.31-32

Place of collection Mexilhoeira Grande, PORTIMÃO, FARO

InformanteGertrudes dos Santos (F), born at Mexilhoeira Grande (PORTIMÃO) FARO,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaConvinced Belief

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