A bruxa que quebrou a sina

APL 1083

Era uma vez uma rapariga que namorava um rapaz há já muito tempo. Namoro que era contra a vontade dos pais dela.
 Já um sem número de vezes o rapaz lhe propusera casamento, que falaria a sério com os pais dela e depois, certamente, acabariam por permitir. A resposta dela era sempre a mesma: que não o fizesse.
 Por muito gostar dela o rapaz não desistiu e ía sempre insistindo com a ideia do casamento. Mas, havia ali qualquer coisa que ela lhe escondia, ela não dizia tudo.
 Ao fim de grande pressão, após maiores promessas, a rapariga foi-lhe dizendo:
 - Sabes, eu gosto muito de ti, mas não poderei casar contigo, porque sou bruxa e tenho de sair durante a semana, um certo número de dias a certa hora.
 E logo acrescentou:
 - Mas se tu quiseres podes quebrar isto. Mas é muito perigoso.
 E foi-lhe contando:
 - As bruxas vão sempre para a Ponte de Santarém e põem-se todas em fila com o Diabo à frente.
 Num dia, acordado por ambos, ela poderia ser a última e ele teria de fazer o seguinte. Continuou ela:
 - Terás de levar um aguilhão e um capote ou uma manta. Eu serei a última, espetas-me sem dó o aguilhão de modo a que faça sangue, porque se não fizer temos de te matar. Eu fico nua e sem aqueles poderes. Então, embrulhas-me no capote ou na manta que levares.
 Na noite combinada lá estava o rapaz, cheio de medo, à beira do carreiro por onde elas deviam passar. Nessa noite a sua dama deveria ser a última, teria que a ferroar e esperar.
 Elas aí vinham todas em fila e, ao passarem por ele, iam dizendo:
 - Cheira-me aqui a carne humana, cheira-me aqui a carne humana.
 E a rapariga do fundo da fila ia dizendo:
 - Siga à frente, siga à frente.
 Porque ela já sabia o que se passava.
 Quando ela ía a passar, o rapaz espetou-lhe com força o aguilhão e, logo ali, ela ficou nuazinha à sua frente.
 Ele cobriu-a com o cobertor e foi levá-la a casa. Chegado lá disse para o pai da rapariga:
 - Pegue, aqui tem a sua filha, não lhe bata, não lhe faça nada de mal que amanhã venho contar-lhe o que se passou.
 No outro dia foi a casa do pai da rapariga e contou-lhe tudo o que acontecera. O pai, que até aí estava contra o casamento mudou logo de opinião e disse ao rapaz:
 - A partir de hoje podes casar com a minha filha e tudo quanto eu tenha passa a ser igualmente teu.

Fonte Biblio HENRIQUES, Francisco Contos Populares e Lendas dos Cortelhões e dos Plingacheiros Vila Velha de Ródão, Associação de Estudos do Alto Tejo, 2001 , p.104-105

Ano1984

Place of collection-, PROENÇA-A-NOVA, CASTELO BRANCO

ColectorFrancisco Henriques (M)

InformanteCesaltina Henriques (F), - (PROENÇA-A-NOVA) CASTELO BRANCO,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications