A Capela de N. S.a de Guadalupe

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Ao lado de Ponte, aldeia da freguesia de Mouçós, Concelho de Vila Real, há um valioso santuário, de estilo românico, dedicado a N. S.a de Guadalupe. E muito próximo, num monte que dá para o Rio Corgo, está uma capelinha, com uma cavidade redonda na parede lateral, onde as pessoas costumam meter a cabeça, porque de lá, dizem, se consegue ouvir o mar.
 Foi ali que el-rei D. Afonso III, o Rei Lavrador, quis fundar uma vila para ser a capital da região de Panóias, chegando a conceder-lhe o respectivo foral. Tal desiderato não se concretizou, por várias razões; e seu filho, D. Dinis, mandou-a edificar uma légua mais a sul, a qual, pela sua origem régia, tomou o nome de Vila Real.
 Mesmo em frente do local onde se construiu a capela de N. S.a de Guadalupe, passava a estrada romana, por onde se deslocavam as mencionadas quadrigas romanas, a caminho de Braga, pela ponte de Piscais.
 Por ali passou também a lenda, que atribui a construção das duas capelas, não aos Romanos como seria mais lógico, mas aos Mouros, que, talvez por afinidade geográfica e cultural, marcaram profundamente a tradição do nosso povo.
 E a lenda diz que os Mouros, derrotados pelas aguerridas tropas portuguesas, fugiram para aquele local, onde se instalaram com todos os seus haveres.
 Escolheram para o efeito uma gruta situada no cimo do Monte Cabeço, voltada para o rio, um sítio inexpugnável e invisível, onde poderiam viver tranquilos, ao abrigo dos olhares indiscretos e incómodos dos povos das vizinhanças.
 Mas, nunca fiando, à cautela, não deixavam de tomar todas as precauções. Para não serem surpreendidos, passavam os dias recolhidos na gruta, donde só saíam à noite, para ir ao rio buscar água e aos campos, para procurar alimentos.
 Como não gostavam de estar ociosos e havia muitas pedras no desfiladeiro, resolveram fazer alguma coisa com elas. Arrancaram-nas, levaram-nas para o interior da gruta e aparelharam-nas.
 Depois, construíram com elas, mesmo em cima da gruta, uma capelinha que tem na parede voltada ao Sul a tal cavidade redonda que o povo diz que servia para os Mouros meterem lá a cabeça e ouvirem o mar.
 Ainda agora algumas pessoas têm o costume de fazer o mesmo: umas para ouvirem o sussurro semelhante ao das ondas, outras para aliviarem as dores de cabeça. Por essas razões, puseram ao local o nome de Monte Cabeço e à capela o nome de capela de Santo Cabeço.
 Animados com esta experiência feliz, decidiram tentar uma outra de maior amplitude.
 Para tanto, escolheram um local mais abaixo, junto da via romana, que se coadunava melhor com o ambicioso projecto, mas que apresentava um alto risco, porque ali passava muita gente e seriam fatalmente descobertos.
 Para evitar esse risco, teriam de concluir o trabalho numa só noite, tarefa só viável, graças ao seu grande poder de acção e à sua prodigiosa imaginação.
 Depois de planearem cuidadosamente a obra, prepararam previamente todas as pedras necessárias e marcaram-nas com um sinal convencional, que ainda agora se pode ver, para não se enganarem ao assentá-las. Segundo os cálculos do autor do projecto, ou havia de faltar uma ou sobrar uma.
 Terminado esse trabalho, esperaram pela estação do Inverno, cujas noites são maiores, e iniciaram a segunda fase: o assentamento das pedras.
 Então, começou a insana lufa-lufa do levantamento da obra: uns a transportar as pedras, outros a assentá-las. Trabalharam como moiros toda a noite, sem descanso; mas, ao ralar a madrugada, graças a Alá, o monumento estava pronto! E correu tão bem que não faltou pedra nenhuma, antes, pelo contrário, sobrou uma que lá deixaram e ainda se encontra guardada na sacristia, como recordação.
 Os primeiros transeuntes que por lá passaram, no dia seguinte, para o trabalho ficaram muito surpreendidos com o que viram: uma grandiosa capela feita da noite para o dia. E não tiveram dúvidas: aquilo só podia ter sido obra de moiros.
 E foi essa explicação, apresentada para a existência da grandiosa capela de Nossa Senhora de Guadalupe e da humilde capelinha do Santo Cabeço, que passou de geração em geração e que ainda perdura entre a gente simples da terra.

Fonte Biblio FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.110-112

Place of collection Mouçós, VILA REAL, VILA REAL

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications