A Dona Branquinha

APL 949

Mais ou menos há cinquenta e três anos atrás, por volta de 1947, numa aldeia chamada Candedo, concelho de Murça, aconteceram certas coisas que ainda hoje estão por explicar.
A senhora Dinora, que nascera nessa aldeia, conta ainda hoje que havia uma mulher muito respeitada, de seu nome Dona Branca, mais conhecida por Dona Branquinha, que faleceu de repente.
A Dinora tinha sete a oito anos de idade. Lembra-se apenas que a Dona Branquinha era bastante forte, ignorando que, quando ela morreu por motivo de doença, ficara magra. Dias depois, numa noite calma, a Dinora não conseguia adormecer, parecendo que alguém a estava a chamar.
Ao longo da noite, a Dinora ouvia cair uma espécie de pingas de água no balde do lavatório do quarto onde dormia e verificou que apenas ela se apercebeu desses ruídos.
A certa altura disse:
– Mãe, tenho sede. Quero beber água.
A Mãe, do outro quarto, respondeu:
– O teu irmão Jaime que vá contigo à cozinha.
O irmão acompanhou-a a beber. Entretanto, a Dinora com o copo na mão, foi directa ao postigo da porta, abriu-o e dou de caras com uma imagem vestida de preto e com um manto cinzento, que sorria para ela. Não pensando em consequências, disse espontaneamente estas palavras:
– Jaime, olha a Dona Branquinha!
Ao ouvir tais palavras, o Jaime desatou a fugir aos gritos, o que fez com que a Dinora também corresse. A Senhorinha, mãe de ambos, tomou conhecimento do que se passou e repreendeu-os. A Senhorinha, porém, acreditou na filha, porque de facto ela era uma criança e nem sequer tinha visto o funeral. Assustada e confusa, dias depois cruzou-se com a Paulina, uma sua enteada, e contou-lhe o que a Dinora lhe tinha dito e o que vira. A Paulina respondeu:
– Tudo isso é verdade. Nessa mesma noite, não consegui adormecer. Tive medo.
Em minha casa parecia que estavam a partir todos os objectos. Levantei-me, fui à janela e confrontei-me com a Dona Branquinha. Ela estava tal e qual como foi sepultada.
Estava linda. Parecia que queria dizer alguma coisa. Depois, o barulho acabou.
O mundo é cheio de mistérios; este é um deles. Porque é que só duas pessoas, a Dinora e a Paulina, viram a Dona Branquinha depois de morta?

Fonte Biblio AA. VV., - Literatura Portuguesa de Tradição Oral s/l, Projecto Vercial - Univ. Trás -os-Montes e Alto Douro, 2003 , p.AP10

Ano2000

Place of collection Candedo, MURÇA, VILA REAL

ColectorIracema Aurora Guedes Monteiro (F)

Narrativa

When1947

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications