A Encantada de Porches

APL 1589

Porches, o velho, a uns três quilómetros de distância da actual povoação do mesmo nome, foi em tempo dos mouros uma praça forte com o seu castelo bem defendido.
 Da velha povoação e do seu respectivo castelo restam ainda alguns vestígios dispersos, que bem denotam a sua primitiva importância. Não é fácil indicar o dia e o ano em que D. Afonso III tomou posse do castelo, mas sabe-se que este monarca dele fez doação a D. Estevão Anes, seu chanceler, em Fevereiro de 1352.
 Proximamente ao castelo passa um ribeiro, hoje conhecido pela ribeira do Vale do Olival, sobre o qual os mouros mandaram construir uma famosa ponte, de que resta apenas um pilar enegrecido pela acção de tempo.
 Conta a tradição e refere a lenda que passando junto do pilar em certa noite um homem daqueles sítios ouviu, não muito distante, umas vozes tristes de pessoas que se lamentavam. Pensou ele que alguém necessitava talvez de auxilio na passagem da ribeira, um pouco caudalosa, naquele sítio, e, para se certificar, prestou maior atenção e fixou o ponto de onde vinham as vozes. Em breve distinguiu duas pessoas: um homem e uma jovem, vestidos à maneira dos mouros. Facilmente conheceu as vestiduras, pois havia apenas alguns meses que tinham sido expulsos da província os sarracenos.
 Em seguida a algumas palavras proferidas pela jovem e que o homem não percebeu, falou o mouro muito distintamente pela seguinte forma:
 — Aqui ficarás encantada, filha querida da minha alma, por longos tempos, pois que enquanto não fôr roçado todo este mato, o seu terreno semeado de oregãos, substituidos estes pela vinha, e esta já em estado de não dar fruto por ser velha, não tornarás ao aduar de teus pais, a pátria amada dos nossos maiores.
 Enquanto o mouro proferia estas palavras, estreitava ao coração a filha, que soluçava.
 Ficou o homem dolorosamente impressionado com aquela cena, que não durou por muito tempo, pois que tudo desaparecera num momento, apenas o mouro acabara de falar.
 Afastou-se temeroso do sítio e contou no dia seguinte a várias pessoas o que ouvira na noite antecedente.
 Correu em breve a notícia do encantamento, muitos cristãos porém duvidaram da sua veracidade. Passados alguns meses deu-se um caso que assombrou a todos.
 Passava em certo dia por aquele sítio uma pobre mulher com uma alcofinha debaixo do braço, pedindo esmola, viu junto do referido pilar uma esteira com figos ao sol. Ficou ela surpreendida não só porque naquela época não havia figos nas figueiras, mas porque nem figueiras ali havia por estar todo o terreno coberto de mato espesso. Para se certificar de que eram figos, aproximou-se da esteira e tirou um punhado que meteu na alcôfa. Mais adiante abriu a alcôfa e então foi maior a sua surpresa: em vez dos belos figos encontrou-se com valiosas moedas de ouro puro. Arrependida de não ter tirado da esteira maior porção, voltou ao lugar onde a encontrara. Experimentou então o maior dos desenganos: desaparecera a esteira; não encontrou mais figos.
 Espalhou-se em seguida por todos os sítios a notícia da esteira de figos de ouro, e então ficaram todos convencidos de que o homem, que presenciara o encantamento da moura, estava em seu juizo perfeito e que vira realmente o que contara.
 E ainda hoje muita gente do sítio crê piamente no encantamento da moura, porque, além do facto que deixei contado, muitos outros se têm sucedido que mais e mais confirmam existir junto do pilar uma desditosa moura encantada.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.231-232

Place of collection Porches, LAGOA, FARO

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications