A Ermida do Espírito Santo em Angra

APL 1303

Era o ano de mil seiscentos e quarenta, tempo da aclamação do rei D. João IV. Depois de assistir às solenidades da coroação, em Lisboa, Francisco Ornelas da Câmara, capitão-mor da Vila da Praia, regressou à Terceira com uma nobre missão: Tal tinha sido o entusiasmo deste fidalgo que o rei o julgou capaz de submeter ao poder português o castelo de Angra, ainda dominado pelos espanhóis.
 Ao chegar à ilha, Ornelas da Câmara comunicou ao capitão-mor da cidade de Angra, seu cunhado, João de Bettencourt, a missão de que fora incumbido. Onze meses de dificuldades começaram, quer para os terceirenses que tentavam tomar o castelo, quer para os espanhóis que resistiam com bravura. Por fim os espanhóis, que sofreram tantas necessidades que tiveram de alimentar-se de ratos, renderam-se honrosamente. Francisco Ornelas da Câmara tinha conseguido levar a bom termo a difícil missão, mas não gozou muito o sabor da vitória. Logo apareceram invejosos e intriguistas, de entre os quais o Marquês de Castelo Rodrigo, que tentaram denegrir as qualidades do capitão-mor, conseguindo que fosse, com outros valentes terceirenses, considerado desleal à pátria e, por isso mesmo, encarcerado.
 Os longos e penosos dias de prisão eram passados com amargura, mas com confiança de que o Espírito Santo seria seu protector. A filha, Emília de Ornelas, implorava a Deus a sua intercessão. Veio finalmente a sentença: a magistratura de Angra decidiu condenar à morte os acusados que apelaram para os tribunais da Corte.
 Para Francisco Ornelas e família a vida passou a resumir-se a uma difícil espera e à confiança no Espírito Santo.
 Os juízes de Lisboa tinham dúvidas, nada estava claro e o debate levou dias.
 A vinte e três de Março, o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu a sentença condenatória. Lavraram, com alguma relutância, a sentença e, quando os juízes iam assiná-la, entrou por uma janela da sala uma pomba alvíssima, que passando rasteira sobre a mesa, virou o tinteiro, tornando invisível o que estava escrito.
 Os juízes ficaram maravilhados e concordaram que aquilo tinha sido um sinal de Deus. Lavraram então, com entusiasmo, a sentença de absolvição dos réus Francisco Ornelas da Câmara, devoto do Espírito Santo, ao saber o que se tinha passado, prometeu dar todos os anos um grande bodo de seis moios de trigo e seis bois, que ele serviria descalço, aos pobres. Prometeu também edificar em honra ao Espírito Santo, na rua dos Quatro Cantos, uma formosa ermida e trazer para sempre no seu brasão o emblema do Espírito Santo.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.130-131

Place of collection Angra (Sé), ANGRA DO HEROÍSMO, ILHA TERCEIRA (AÇORES)

Narrativa

When1640

CrençaUnsure / Uncommitted

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