A Espada da Virgem

APL 3050

Davam lá em cima no Convento as onze da noite.
    O vento abandava as árvores, fustigando-lhes as folhas num assobio agudo arrepiante.
    Pelas janelas da igreja matriz coava-se a luz pálida da lâmpada, cujos reflexos desenhavam ao fundo sombras aterradoras, que os movimentos da chama tornavam movediços.
    Junto ao muro do cemitério, chapinhando a sua lamacenta, passada o ‘Vadio’ com a gola sebenda de um velho casaco aconchegada ao pescoço, mãos nos bolsos, voltando sempre a cara à acção do vento. ‘Berr!...’ fez ele ao voltar da esquina, olhando de frente o vasto edifício da cerca, fantasma negro, àquela hora da noite, que conservava ainda entreaberta a janela do lado, cuja luz se ia reflectir na porta principal da igreja.
    ‘Oh! lá! Vira de cronha que por aqui não vais bem’, e desceu apressado o cômoro íngreme que o separava do lugar da Abadessa.
    Lá em cima, na vila nova, as luzes do Convento, aparecendo e desaparecendo, semelhavam fogos fátuos numa noite quente de estio sobre as campas de um cemitério.
    O ‘Vadio’, piscando os olhos, resmundou zangado:
    ‘Raio de frades!... e encolhendo os ombros, encostou-se à ombreira de uma porta esperando num desespero crescente que desaparecesse a luz que se reflectia na porta encarnada-escura da igreja fronteira.
    Filho de um alcoólico incorrigível, entregava-se desde pequeno à malandrice, bebendo, jogando, dormindo ao frio e à chuva sem eira nem beira, desconhecendo família, desprezando conselhos, abandonado por todos.
    Ultimamente tornara-se ladrão.
    Foi nesta última fase da vida que veio finalmente a sentir o amor! Amava enfim!
    Até ali bebia copos de vinho, por beber, porque lhe sabiam bem e mais nada!
    Olhava as mulheres de soslaio, rindo alvarmente, ‘da palermice destes gajos, dizia ele entre a fumaça e um golo, que se deixavam cair como tordos!’
    ‘Nada, mulheres: num bai!’ e frazia os lábios emporcalhados, animando o caso com uns movimentos de canalha.
    Agora, entregara-se de corpo e alma ao novo mister, empregando nele toda a sua actividade, aperfeiçoando-se a todo o momento, amando tudo que lhe aparecesse envolto no Desconhecido e no Incógnito.
    Detestava o roubo certo, sem aventuras, sem riscos, onde nada tivesse a temer, preferindo por isso os roubos audaciosos, onde a vida estivesse por um fio, onde ele visse sempre sobre a sua cabeça, cujos cabelos emaranhados a tornavam hedionda, o gume terrível da espada de Dâmocles.
    O roubo nestas condições era a mulher predilecta.
    Embrenhar-se numa hora tarda da noite pelos pinhais, galgando muros, atravessando cemitérios, ao clarão rápido dos relâmpagos, eis o seu Ideal.
    Desapareceu enfim a incómoda luz do palácio da cerca.
    ‘Vadio’ só teve uma exclamação – Viva!... e sacudindo o corpo, como um rafeiro ao levantar-se do chão, subiu rápido até junto do gradeamento do cemitério, galgou-o de um pulo, e foi sorrateiramente experimentar a porta principal. Empurrou-a, mas não cedeu. Estava fechada.
    Torneou portanto a igreja, e leve, nuns saltos de corça subiu até ao último vidro de janela do altar-mor, servindo-se dos grossos varões que a defendiam.
    Por um vidro que o rapazito havia partido, lobrigou a meio da igreja, sobre uma eça toscamente armada, o caixão do conselheiro. Uma toalha alvíssima tapava-lhe o rosto.
    Os tocheiros que ladeavam o caixão, haviam sido apagados, iluminando debilmente a igreja a luz mortiça da lâmpada.
    De repente os olhos do ‘Vadio’ brilharam de um modo estranho na penumbra da janela, é que haviam lobrigado sobre o peito do morto a sua cruz de ouro que toda a gente conhecia e em que todos falavam, desejando possuí-la pelo seu valor artístico. E o ‘Vadio’ sabia isto; e por saber isto desejou também conhecê-la de facto.
    Abandonou de um pulo os varões da janela, veio de volta, abriu cautelosamente a porta lateral, certificou-se de que ‘mestre Simão’, o guarda do corpo, dormia a sono alto, e febril arrebatou num ímpeto de sobre o corpo do conselheiro a famosa cruz, já tão cobiçada.
    A lâmpada ia desenhando nas paredes as sombras movediças das coisas.
    Um rato no coro fizera estrando, e quando o ‘Vadio’ quis abandonar a igreja, não pôde! Sugestionando por tudo o que o rodeava, abrindo muito os olhos como a medir a grandeza do perigo, ele viu à luz pálida da lâmpada uma mão misteriosa arrancar a espada do peito da Virgem e cravar-lha no peito!
    Soltou um grito e sob aquela impressão extraordinária de pavar tombou para o lado para jamais se levantar. Aquele minuto de sofrimento foi o suficiente para lhe embranquecer os cabelos.

(Faliero, in Semana de Mafra, 8 Jul. 1906).

Fonte Biblio CAETANO, Amélia "Lendário Mafrense" in Boletim Cultural '93 Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 1994 , p.262-264

Place of collection Mafra, MAFRA, LISBOA

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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