A fidalga branca

APL 69

Se o leitor alguma vez tiver de ir ao Gerez, ao passar pela estada que segue de Braga para a montanha, avistará á direita o recorte gracioso das ameias do velho castello de Castra, dos Machados, senhores de Entre Homem e Cavado, da Torre de Vasconcellos e Barroso. Ha parto de quatro seculos essa casa preparava-se para hospedar com notavel galhardia o cardeal D. Henrique, então arcebispo de Braga, e seus dois irmãos, os infantes D. Luiz e D. Fernando, que de proposito foram de Lisboa assistir ao baptisado do primeiro filho varão de Manuel Machado.
 Em frente do castello erguera-se como por encanto um palacio provisorio, para agasalhar a comitiva e muitos fidalgos e populares de Entre Douro e Minho, que de longe foram assistir ás grandiosas festas, onde estiveram mais de seis mil pessoas.
 Ia grande alvoroço em Castro. Bernardim Machado — irmão do senhor da casa, que fôra a Braga esperar os príncipes — deu as ultimas ordens, para que nada faltasse ao bom recebimento dos illustres hospedes, e dirigiu-se em seguida, para a margem fronteira do rio, onde teriam começo as funcções da hospedagem.
 Logo que os infantes chegaram, de uma fingida gruta, que estava num penedo cercado pela agua, sairam em bote um velho veneravel e tres nymphas, trazendo nas mãos ricas salvas de prata de custosos lavores.
 Ao mesmo tempo que a figura do Cavado em magnificos versos declarava permittir o transito das suas aguas, apresentavam as nymphas as salvas cheias, a primeira de jacintos, a segunda de amethistas e a terceira de crystaes, amostras do que, segundo a tradição, se colhia naquellas areias.
 Immediatamente mais de dois mil tiros de mosquetes e arcabuzes estrondearam na outra margem, escurecendo a vista com o fumo da polvora, o bastante para que, dissipado o negrume, houvesse a surpreza de se verem doze barcos imitando galés, que, divididos em partidos, fingiram batalha de turcos e christãos. Como era previsto, venceram estes, pelo que em signal de regosijo vencedores e vencidos, todos além de verdadeiros christãos bons cantadores, se dispozeram em coros pelos penhascos do rio, e, emquanto os principes e a côrte iam passando em barcos para a outra margem, entoaram singelas, mas formosas cantigas em sua honra.
 Ao desembarque appareceram de entre as arvores, em figura de sereias, as mais bellas moças dos arredores, cantando lindas trovas ao som de instrumentos que tangiam.
 — Bem cantam as sereias — disse um dos principes a Manuel Machado.
 — Tambem encantam — respondeu este, — e mais encantariam, se não temessem as visitas frequentes que por aqui manda fazer o senhor cardeal.
 Foram todos subindo para o castello, passando por varios arcos de ramos e flores curiosamente matizados. Ao chegarem á praça de armas eccoou uma salva de tiros dados pelos vassallos do senhorio, que logo se apressaram a apagar a sêde em quatro fontes de vinho dispostas aos cantos da explanada.
 Os infantes encontraram na primeira sala D. Joanna da Silva, a dona da casa, muito interessante senhora de Lisboa, filha do aposentador mór, de quem se enamorára o marido, frequentando em moço a côrte, e d’ella dissera, com devoção de apaixonado e enthusiasmo de artista, uma vez que um dos principes o surprehendêra a fazer-lhe de memória o retrato — que estava pintando Nossa Senhora da Silva.
 Esta D. Joanna viveu com larga demora nos seus dominios; não sabemos se de boa vontade, se contrariada. Da mulher de seu bisneto, o primeiro marquez de Montebello, é conhecida a phrase indicadora do enfado com que olhava para aquella solidão, contraste da buliçosa Madrid, onde nascêra. Notavam-lhe as bellezas do sitio, a abundancia do peixe, a variedade da caça, a frescura e leveza da agua; e a tudo respondia a marqueza:
 — Si, todo és bueno, pero no habla.
 Mas os tempos eram outros, a creação diversa, e talvez o marquez de Montebello, com ser muito erudito, não tivesse os talentos apraziveis de seu bisavô, que era não só pintor, mas insigne na dança e na musica, principalmente no alaude, versejando tambem a porfia por aquelles formosos oiteiros com Francisco de Sá de Miranda, seu vizinho, cunhado e grande amigo.
 E era além d’isso tão sagaz e de boas manhas que, desejando uma vez recrutar uma leva de soldados para servirem em guerra contra moiros, succedeu que no dia em que se espalhou o aviso foi o pôr do sol acompanhado de, um forte brazido nas nuvens. Não appareceu ninguem a alistar-se, correndo voz de que o signal do ceo era agoiro de derrota nos christãos, e pelo contrario seria prenuncio de victoria que a lua apparecesse com a mesma côr de fogo. Manuel Machado não insistiu no convite; esperou noite ventosa, confeiçoou uma lua de papelão, preparada com estopa e outros ingredientes, levantou-a ao ar; com um barbante prendeu-a á torre do castello, e fez-lhe subir o lume por outro fio mais delgado, que fôra passado por polvora desfeita em vinagre. No dia seguinte a maioria dos homens válidos foi offerecer-se para a guerra.
 Ignorâmos se o leitor é curioso d’estas bagatellas, ou se estará enfastiado do parenthesis, e porventura offendido da irreverencia, abandonando nós os senhores infantes na sala de armas do castello. Diremos apenas que foi acto de boa cortezia não escutar a conversação dos angustos hospedes com a dona da casa. Agora que ella terminou, acabaremos nós a descripção da festa. O baptismo foi na sala seguinte, que se chamava dos peixes, por estar pintada com umas marinhas e grande variedade d’elles.
 Findo o sacramento, a que assistiram o deão e mais dignidades da sé primacial, começaram os folguedos, que duraram tres dias. Houve fogos, cannas, toiros e comedias; os banquetes foram bem cozinhados e fartos, havendo memoria de nelles se terem comido pavões reaes que se creavam naquellas quintas.


*
 Foi certamente grande honra a visita dos infantes; mas não levaram estes benção ao afilhado, mais tarde heroe de tragedia, que o leitor poderia, ha poucos annos ainda, adivinhar nas tintas quasi sumidas do tecto de uma das salas.
 Volvidos alguns lustres, o neophyto, como diriam os noticiaristas de hoje, estava casado com D. Maria da Silva, filha dos senhores da Ponte da Barca, Nobrega e Souto de Rebordões.
 Morrêra Manuel Machado, longos annos viuvo, e seu cunhado Francisco de Sá de Miranda morrêra tambem, poucos annos depois de enviuvar; mas entre as casas de Castro e da Tapada continuavam estreitas relações de vizinhança. Nesta viviam Jeronymo de Sá e sua mulher.
 Era D. Maria da Silva, além de virtuosissima, dotada de grandes encantos. E possivel que Jeronymo notasse de mais a graça e gentileza da castellã, cuja honestidade baldaria extremos de galanteio. Talvez fosse esta a causa verdadeira do odio que se lhe entranhou no peito; mas não se referem a isso as memorias do tempo, que apenas registam o empenho do senhor da Tapada em obter para um parente seu a renuncia da comatenda de Rendufe, e haver o commendador renunciado em favor de um irmão de D. Joanna. Afigura-se-nos exaggerada a malquerença por tal motivo; mas, fosse pelo que fosse, o filho dp poeta deu a entender a Francisco Machado — assim se chamava o primo — que a mulher d’este o atraiçoava com o commendador Henrique de Sousa, homem adiantado em annos e com enfermidades taes, que por completo arredam hoje qualquer suspeita de crime.
 Andando Francisco Machado á caça, procuraram-no Jeronymo de Sá e Martins Coelho, para lhe dar aviso de que chegára o momento de o poderem convencer da traição. Passaram os tres parte da noite a rondar a casa. A deshoras avistaram um creado do commendador, que fôra comprado pelo senhor da Tapada, levando á arriata a mula que seu amo usava cavalgar. Francisco Machado, seguro de que era certo o aleive, entrou no quarto da mulher, usando de uma chave mestra. Ia disposto a fazer duas mortes legaes; mas encontrou D. Maria dormindo socegadamente, apertada com um cilicio. Desconfiou da intriga; os amigos porém affirmaram-lhe que tinham visto o commendador montar a mula e fugir.
 Passaram-se poucos dias. A senhora da Tapada avisou a prima do risco em que estava, e pediu-lhe que fosse para casa do pai, na Ponte da Barca. A honesta e altiva fidalga respondeu que antes morrer sem culpa em sua casa, que fugir infamada para casas alheias; e, sendo visitada por Jeronymo, que a suppunha ignorante do que elle tramava, disse-lhe: — Veja o que faz; lembre-se que em mulheres como eu não pegam as nodoas.
 O calumniador, percebendo que a denuncia viera da mulher, ao chegar a casa, apunhalou-a.
 Não sabemos que novas provas forjaria Jeronymo de Sá, nem como iria destruindo na mente de Francisco Machado as duvidas que este conservava, O certo é que um dia, em que o commendador foi a Castro e se sentou a uma mesa de jogo, veio por detrás um negro, deu-lhe na cabeça uma rija pancada e matou-o. D. Maria, acudindo ao estrondo, saiu com as suas aias a uma antecamara; Francisco Machado, que se dirigia nessa occasião em sua procura, encontrando-a, tirou da espada.
 — O Espirito Santo se entreponha entre mim e essa espada — exclamou a innocente dona.
 O senhor de Castro vibrou o golpe; mas a lamina, sem roçar o corpo da infeliz, saltou dos copos, e quebrou-se em tres pedaços.
 O colerico fidalgo, assombrado, voltou á quadra onde ficára o primo, e contou-lhe o successo estranho.
 Jeronymo disse-lhe: — A tua espada náo prestava; toma esta — e entregou-lhe a sua.
 O marido tornou dentro e matou a mulher.
*
 O corpo de D. Maria foi levado ao jazigo de seus avós na Ponte da Barca; mas o seu espirito quedou-se por aquellas paragens, e ainda hoje, volvidos seculos, o povo, que a venera como santa, affirma que apparece pelas salas do castello. A figura em que se mostra é branca, muito branca, e envolvem-na alvas roupagens; por isso lhe chamam a fidalga branca. E diz a gente da aldeia que nunca se viu magestade e belleza assim, nem rosto que mais espelhasse a innocencia. O povo resa-lhe, e commemora em maus versos e muito estropiadamente a negra tragedia.
 Duas das suas quadras dizem:

Dia de S. Braz
Ao meio dia
Mataram Dom Abbade
E Dona Maria.
Dona Maria,
Pomba sem fel,
Porque te matou
Esse cruel?


 Lá andará sósinha, nessas longas noites de inverno, a passear pelos salões a encantadora fidalga. Quem nos dera vel-a e perguntar-lhe se está penando por sua vontade os peccados grandes dos que, matando-a, quizeram infamar-lhe a memoria.
 As vezes o negrume é tal que nem uma estrella scintilla as ventanias vergam as arvores da matta em rija tempestade, e parece desconjuntarem as paredes do castello.
 Dir-se-ia até que os furacões arrancam do chão, onde ha um barulho medonho, e, uivando como espiritos de condemnados, vão fugindo pelas quebradas dos oiteiros
as almas penadas dos calumniadores atormentadas pelo remorso…
 Então lá apparece no mais alto da torre a figura suave da santa que perdoou; para logo a procella amaina, e um raio de lua vem beijar as ameias do castello, cobrindo o esbelto espirito com manto prateado.

Fonte Biblio BERTIANDOS, Conde de Lendas Ponte de Lima, Hospital Conde de Bertiandos, 1993 [1898] , p.79-91

Place of collection-, BRAGA, BRAGA

ColectorConde de Bertiandos (M)

Narrativa

When XIX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications