A fonte da sancha e a de fontela

APL 925

Na Vila de Sabrosa, residia, em tempos já bastante recuados, a família Barros, muito rica e muito conceituada na corte, e que tinha, por isso, grandes privilégios.
 Um desses privilégios era o direito de asilo que concedia às pessoas perseguidas pela justiça a garantia de não poderem ser presas, desde que conseguissem agarrar-se às argolas do seu portão.
 A família tinha oito filhos: sete rapazes, que seguiram todos a carreira militar e chegaram também todos a generais, e uma rapariga, que contraiu matrimónio com um fidalgo de Cheires, Concelho de Alijó.
 Os generais foram para a guerra e por lá ficaram, não regressando mais à casa paterna. E a Senhora, depois de casada, foi residir com o marido para Cheires.
 Diz a tradição que a maior pena que sentiu, ao deixar a terra, foi ver-se privada da água da nascente de Fontela que tanto apreciava e bebia com tanto prazer.
 Era uma água sem igual: muito leve, muito fresca e muito saborosa; e, segundo a opinião generalizada, com propriedades medicinais.
 Durante alguns dias, procurou esquecê-la e habituar-se à água da sua nova terra, mas não o conseguiu.
 Resolveu então mandar todos os dias um criado buscar água à nascente de Fontela. Mas, para lá chegar, era necessário percorrer uma enorme distância por caminhos íngremes, com muitas subidas e descidas.
 Por estas razões, o criado tinha de se levantar muito cedo e de andar bem ligeiro, para não deixar que a preciosa linfa perdesse a frescura natural.
 Certo dia de Verão, apertado pelo calor e pela sede, o pobre criado sentiu necessidade de repousar no meio da jornada. Aproveitando a sombra fresquinha dum frondoso castanheiro, que estava à beira do caminho, deitou-se e, sem querer, adormeceu.
 Quando acordou, olhou para o sol e verificou que já era muito tarde para ir à Fontela e chegar à hora marcada. Que lhe iria acontecer? Se calhar, seria castigado ou mesmo despedido.
 A lamentar a pouca sorte, encomendou-se a Nossa Senhora, pedindo-Lhe que lhe valesse naquela grande aflição.
 De repente, chegou-lhe aos ouvidos o rumorejar de água, que jorrava, ali mesmo a seu lado, e que nunca tinha ouvido, de apressado que ia.
 Então, levantou-se, deu alguns passos e viu, atrás do castanheiro, a água, que saía duma rocha e se despenhava numa pia de granito. Vinha mesmo a calhar. Dirigiu-se para ela, bebeu regaladamente para matar a sede que o apertava e gostou tanto que resolveu levar daquela água para a fidalga. Talvez ela não desse pela troca e não lhe ralhasse.
 Encheu, pois, o cântaro e retomou o caminho de regresso a Cheires.
 Apesar do atraso a descansar, conseguiu chegar a casa ainda mais cedo do que era habitual. Isso fez nascer na fidalga a suspeita de que o fâmulo não tivesse ido a Fontela, e não trouxe a sua água deliciosa.
 Preparava-se já para castigar severamente a sua desobediência, mas não o quis fazer sem primeiro se certificar da veracidade da sua suspeita.
 Provou, por isso, a água e soltou um ah! prolongado, de satisfação. A água era uma delícia. Até parecia que nem era da mesma.
 Chamou o criado e perguntou-lhe:
 - Aonde foste buscar esta água?
 O criado, a tremer como varas verdes, à espera de ouvir sermão e missa cantada, contou-lhe toda a verdade: atrasara a viagem devido ao cansaço; e, para não chegar tarde, enchera o cântaro numa fonte que estava ao pé do castanheiro grande.
 - Pois, doravante, vais trazer de lá a água todos os dias. Como se chama a fonte?
 Não sabia. Nunca a tinha visto. Mas ia perguntar.
 Veio depois a saber que as pessoas da Vila lhe chamavam a Fonte da Sancha. E foi dessa fonte que a fidalga passou a beber, para gáudio de todos.
 O criado ficou feliz, porque viu encurtado o trajecto e facilitada a sua obrigação.
 A fidalga ficou contente, porque encontrou uma água ainda mais apetitosa que a primeira.
 E os habitantes de Sabrosa ficaram orgulhosos, por saberem que a filha da família Barros só queria beber da água das suas fontes.
 E assim se tornaram famosas as fontes da Sancha e de Fontela que, ainda agora, são muito apreciadas.

 

Fonte Biblio FERREIRA, Joaquim Alves Lendas e Contos Infantis Vila Real, Edição do Autor, 1999 , p.94-95

Place of collection Sabrosa, SABROSA, VILA REAL

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications