A fraguinha do Salgueiro

APL 3731

Na encosta da Ponte do Salgueiro, perto de Valbom da Trindade, no concelho de Vila Flor, há uma fraga com uma brecha no meio e ao lado uma outra com uma pia no meio. Andava uma vez um homem de Santa Comba da Vilariça ali a fazer lenha, quando lhe apareceu uma cobra enorme, muito feia, negra e com pêlos. Assim que a viu o homem agarrou numa pedra para a matar. E nesse momento a cobra falou, dizendo-lhe:
    — Não me mates, senão perdes tudo!
    — Quem és tu? — perguntou o homem.
    — Estou encantada numa cobra. Mas preciso que me desencantem! E tu podes fazer isso! Se o fizeres ficarás rico!
    — Como tenho de fazer então?
    Ela explicou-lhe que no dia seguinte, antes do nascer do sol, teria de voltar lá, deixá-la enrolar-se por ele acima até à boca, e então ele teria de dar-lhe um beijo. Mas em momento algum ele poderia assustar-se ou ter medo.
    O homem aceitou e lá foi. À hora combinada, a cobra lá chegou a abanar as giestas por onde passava e a fazer muito barulho. Subiu então pelo homem acima, enrolou-se nele na cintura, e parou. Aí olhou para o homem e ele nem sequer pestanejou. Depois continuou a subir e chegou-lhe ao pescoço. Parou, voltou a olhar para ele, e então o homem estremeceu. Foi o bastante para estragar tudo. Disse-lhe a cobra:
    — Não pode ser! Dobraste-me o encanto! Mas por teres sido tão corajoso, deixo-te duas moedas de ouro em cima da pia todas os dias, antes do nascer do sol, e não podes contar nada disto a ninguém.
    O homem, como era calaceiro, deixou de trabalhar, pois tinha agora aquele rendimento seguro. E toda a gente da aldeia ia estranhando como é que era possível ele, sem trabalhar, passar o tempo na taberna, a beber e a comer do bom e do melhor. Donde lhe viria o dinheiro?
    Até que um dia, lá na taberna, de tanto beber apanhou uma grande bebedeira. E os que lá estavam aproveitaram então e perguntaram-lhe de onde lhe vinha o rendimento. E diz ele:

— Enquanto a fraguinha do Salgueiro durar,
escuso de trabalhar!

    No dia seguinte foi lá como de costume, e, no lugar das moedas, estavam dois carvões.

Fonte Biblio PARAFITA, Alexandre A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros Vila Nova de Gaia, Gailivro, 2006 , p.351-352

Ano1999

Place of collection-, VILA FLOR, BRAGANÇA

InformanteMaria Isabel Fontes (F), 35 y.o.,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications