A Grota dos Rivais

APL 1253

Em época recuada, na freguesia dos Mosteiros, havia dois irmãos muito amigos. Eram também destemidos e fortes, mas ao mesmo tempo leais na lutas ou disputas que tivessem com outros rapazes da sua idade. Por serem moços de respeito, tratavam bem as pessoas idosas e as raparigas da freguesia, que os viam com bons olhos para futuros maridos. Andavam quase sempre juntos e em trabalhos e festas, distinguiam-se pela seriedade e simpatia.
 As mães das moças, casadoiras desejavam-nos para genros e muitas vezes se ouvia alguém dizer:
 — Que belos rapazes! E não há quem os separe!
 Mas infelizmente houve.
 Tinha chegado a altura e ambos se apaixonaram pela mesma rapariga. Esse amor não era um sentimento passageiro, mas estava bem arreigado nos seus corações.
 A alegria que antes dominava a vida dos dois irmãos deu lugar a um grande sofrimento e a sã amizade que os unia, transformou-se num ódio indestrutível.
 Passaram a evitar-se em casa e no trabalho. As pessoas murmuravam que aquilo não ia acabar bem e a rapariga, sentindo a gravidade da situação, prometia desaparecer se isso fosse necessário para que a paz entre os irmãos voltasse.
 Certa noite, uma sexta-feira, quando vigiavam os passos um do outro, acabaram por encontrar-se entre o escalvado da Várzea e a talisca dos Mosteiros, junto de uma grota que era o atalho mais curto para casa da rapariga que sem querer tinha causado tal desavença.
 Aí começaram a discutir, a ameaçar-se mutuamente com falas duras. Ambos eram teimosos, ambos estavam apaixonados e ciumentos e nenhum queria ceder. Entre ameaças e discussão a desorientação e a raiva iam crescendo, até que puxaram das navalhas e começou uma dura luta. Como ambos eram fortes, algum tempo passou até que os golpes desferidos foram fatais. Caíram agarrados um ao outro e o sangue que deles correu juntou-se numa pequena poça.
 A rapariga que tinha sido a origem desta tragédia, ouvindo barulho, acudiu ao local, mas nada mais pôde fazer do que juntar os seus gritos aos gemidos dos moribundos, que mesmo na morte tinham ficado unidos como tinham vivido a maior parte da sua vida.
 Passou a chamar-se àquele lugar onde se deu a tragédia Grota dos Rivais. Ainda hoje naquele lugar, a Sombra dos dois irmãos, que por amor se tornaram rivais, todas as sextas-feiras, se agita em luta medonha. Ao lado vê-se a sombra de uma linda rapariga, ajoelhada e de mãos postas, que solta gritos lancinantes. Nesses momentos o vento é mais forte e as cagarras gritam agoirentas. Tudo se desfaz e volta a calma à Grota dos Rivais, quando o sino da igreja dos Mosteiros dobra a última badalada da meia-noite.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.77-78

Place of collection Mosteiros, PONTA DELGADA, ILHA DE SÃO MIGUEL (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications