A lenda de okxõnubâ

APL 703

Aquela azenha em ruínas,
Posta nas abas do monte,
Tinha, só, por companheira,
A voz cantante da fonte.

Não se ouviam, como outrora,
Os seus braços trabalhar,
Porque alguém, em outro tempo,
Os fez, p’ra sempre, parar.

E, mais, p’ra que não voltassem
As suas mós a moer,
Fez então secar o rio
Que não mais pôde correr.

Diz, o que sabe dizê-lo,
Que os barcos duma outra gente
Dantes vinham deixar rosas
Que traziam do oriente.

Mas o que aqui fica escrito
Aconteceu noutras eras,
Quando os sóis tinham mais luz,
Ao rodar sobre as esferas.

Foi no tempo em que a moirama
Viveu em terra algarvia;
Tudo, porque ouvi dizer
E porque a lenda o dizia.

* *
Ossónoba, luz cristã,
Era antes ali erguida;
E tudo ao seu derredor
Tinha mais som e mais vida.

Os campos eram de prata
E de prata era o luar;
E dizem, até, que o rio
Tinha ninfas e era um mar.
 
Havia, por toda a parte,
A brilhar, ricos cristais
Que mais refulgiam inda
Nos muros das catedrais.

Os jardins eram mais belos.
Que a luz de todos os sóis,
Aonde de noite vinham,
P’ra cantar, os rouxinóis.

Os palácios, revestidos
De jóias e pedrarias,
Tinham mais cor e mais luz
Que a luz de todos os dias.

Ossónoba era a mais bela
Capital daquele Algarve;
E os seus muros não tiveram
Nem ameias nem adarve.

* *
Naquele tempo, a moirama
Contra a cidade investiu
E a forte gente cristã
Lutou muito e resistiu.
 
Mas vieram outras levas
De gente sem ter perdão,
Porque sua fé, sem Fé,
Se apoiava no Alcorão.
 
Vieram mais e outras mais,
Umas após, outras logo,
Que a cidade, ano atrás de ano,
Foi só posta a ferro e fogo.

Não conseguiu o rei moiro,
Que por nome era Al-Kaiíde,
Forçar, p’la força das armas,
Esses filhos de David.

E assim os tempos passaram
Em guerras, continuamente,
Que nem já comer havia;
Tudo ali era doente.

Al-Kaiíde então previu
A derrota da cidade,
Não pela força das armas,
Apenas por falsidade.

* *
Trazia o moiro consigo,
Da longe terra do Islão,
Uma filha que era mais bela
Que as noites todas de v’rão.

Seus olhos tinham a cor
Que não tem o mar profundo;
Eram azuis, mais azuis,
Que o azul todo do mundo.

No sorriso havia um pouco
Desse perfume das rosas,
Quando à noite se entreabrem
Sorridentes, langorosas.
 
E o seu corpo... ah!... o seu corpo
Era feito só de argila,
Aonde a carne tremia,
Opalescente e tranquila.

O seu andar tinha o ritmo
Do balanço das palmeiras,
Quando o vento dava nelas
As suas brisas primeiras.

Só por isso, a linda moira
— Filha embora de Satã —
Enfeitiçava as estrelas,
Quanto mais gente cristã.
 
* *
Mandou-a o pai, um dia,
De presente, ao rei cristão
Que logo ali se rendeu
Àquela filha do Islão.

Nunca mais teve sossego,
Nem vontade de lutar,
Que as horas eram tão poucas
Para nela se adorar.
 
Deu-lhe até um leito de ouro,
Onde a seus pés se rendia;
Mel e vinho, outros manjares,
E a tudo a moira sorria.

Par’cia, até, ser eterno
Esse amor não desejado;
Porém, o moiro, Al-Kaiíde,
Que assim mesmo era chamado,

Dali invocou Allah
Contra a nefanda união:
A de sua filha, moira,
Casar com homem cristão.
 
Foi após que sucedeu,
Por vontade declarada
De Allah, que a bela cidade
Ali foi logo arrasada.

* *
Muita gente então morreu,
Os vivos de lá fugiram;
Nunca mais as violetas
Nos verdes jardins sorriram.

Ficou calcinada a terra,
As árv’res feitas carvão,
E só as pedras, sem vida,
Emergiram desse chão.
 
Nem sequer houve mais água,
Onde as ninfas habitavam,
Nesse rio que secou
E onde as estrelas sonhavam.
 
De tudo quanto existiu,
Naquela cidade-luz,
Não restou, para o futuro,
Um só braço duma cruz,
 
Que Allah assim encantou
A moirinha, sem perdão,
E, com ela, por castigo,
Seu amante, o rei cristão.

Assim, de Ossónoba, agora,
Só restam, p’ra nos lembrar,
Aquela azenha em ruínas
E aquela fonte a falar.

Lá perto, não sei porquê,
Ao sabor do tempo vário,
Restam, também, desses tempos,
As ruínas dum Balneário.

* *
Fala o Povo, que só ele
Sabe verdade falar,
Que naquelas três ruínas
Andam os três a penar.

A azenha é a moira triste,
O Rei cristão é a fonte,
E as ruínas do Balneário,
Que ali ficaram a monte,

São os ossos convertidos
Em pedra morena e dura,
Do moiro que se perdeu
Por sua vida per jura.

Fonte Biblio LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.29-36

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Narrativa

When XX Century, 80s

CrençaUnsure / Uncommitted

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