A lenda de paderne

APL 719

Essa fonte que sorria
Ao rosto de quem passava,
Quer de noite quer de dia,
Não sorria, mas chorava.

É que tinha dentro dela,
Quando a gente a ouvia bem,
O choro de uma procela
Na voz oculta de alguém.

E até, segredava o Povo
Que é sempre o mestre da vida
— Mistério que adoro e louvo —,
Que uma moirinha perdida
 
Vivia ali nessa fonte
Desde há séc’los encantada,
Tendo só por horizonte
Um curso de água e mais nada.

Diz o Povo, diz a lenda
Que lá bem perto existira,
À direita, uma tremenda
Fortaleza que ruira.
 
Dela se salvara, apenas,
Uma mulher, uma infanta,
Que hoje, nas tardes serenas,
Na água da fonte canta,

Co’uma voz tão maviosa,
Que enternece, de se ouvir.
Por isso, a voz dolorosa
Parece viva a sorrir.

* *
Mas a história foi assim:
— Nesses tempos doutro Tempo,
As lutas tinham por fim
Servirem de passatempo,

Quando guerra não havia
Por serem longe os cristãos.
E os mouros, por bizarria,
Travavam de si as mãos

Em exercícios brutais
De valor e ligeireza.
— Não sou eu que os digo tais,
É a lenda que assim reza —.

Nesse castelo fortíssimo
Que um califa ali erguera,
Vivia então, sereníssimo,
Um vizir que amolecera

No cuidar da defensão,
Por de si se aperceber
Que as hostes de El-Rei cristão
Não viriam ali ter.

Eram felizes. A fome
Não havia no seu cerne...
E o vizir tinha por nome
Mustafá Dar-al-Paterne.

Tinha uma filha, era Fhatma,
Que a todos deitava a mão,
E ninguém sofria anátema
Se cumprisse o Al-Corão.

Felizes.., até que um dia
Uma densa cavalgada,
Lá muito ao longe, apar’cia
Ao romper da madrugada.

Eram hostes sarracenas
Fugidas aos portugueses
Que tomaram com más penas
Silves em tão poucos meses.

Mas logo atrás, logo atrás,
Com tremendo arruaceiro,
Vinham os cristãos, não em paz,
De El-Rei Dom Sancho, o primeiro.

E cercaram Mustafá,
Exigindo a rendição,
Mas não consentiu Allah
Que se dessem ao cristão,

Porque um mouro é sempre um mouro,
Não se dá senão à morte;
Tem por destino o tesouro
De morrer, nascer mais forte.

Logo ali se deu batalha,
Pavorosa e tão cruenta,
Que toda aquela canalha
Da mourisma turbulenta

Deixou a vida sem dia,
E sem ver que mais além
Nascesse como dizia
O Al-Corão, notem bem.

Dos mouros não escapou
Um, sequer, para contar,
Aos seus, o que se passou
No combate singular.

E decorridos três dias
De um descanso bem ganhado,
Entre gritos e alegrias,
O muro foi derribado

Do castelo, palmo a palmo,
P’ra que daí para a frente
O viver fosse mais calmo
Da cristã, fritura gente.

Mas alguém ouviu gemer
Entre as pedras de uma frágua
Uma voz de enternecer,
Que vinha da fonte de água

Que corria ali tão perto.
E a voz ou choro dizia:
“Levai-me deste deserto...
“Dai-me só a luz do dia...”

Mas quando o oficial -
- Comandante se chegou,
Daquela gruta, ao portal,
A terra toda girou

Em convulsão pavorosa
Nas forças de um terramoto,
E uma fala portentosa,
Nascida num ponto ignoto

Dos aléns dos infinitos,
Se ouviu por longos instantes.
— Nem a fé nem mesmo os mitos
Eram, lá, mais importantes
 
Que essa voz vinda do céu.
E dizia o Deus Allah:
“Nenhum ser do Povo meu
“Convosco, cristãos, irá.

“Fathma pois, encantei
“Nas águas dessa cisterna
“E vive, porque a mudei,
“Por toda uma vida eterna,

“Em forma de encantamento,
“Neste lugar que há-de ser
PADERNE a todo o momento,
“Enquanto a luz eu vos der.


* *
E foi assim que nasceu
Esta nossa linda aldeia,
Diz a lenda... acredito eu...
Também de vós há quem creia...

Fonte Biblio LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.146-151

Place of collection Paderne, ALBUFEIRA, FARO

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

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