A lenda do Lagrisomem

APL 1791

A lenda do lagrisomem é, porventura, a mais conhecida de entre as lendas Portelenses.
Nos tempos antigos eram usuais as famílias numerosas, uma vez que a mortalidade era elevada e todos os braços eram poucos para o amanho da terra.
Todavia, acreditava-se que se um casal que tivesse uma irmandade de sete rapazes, um deles seria lagrisomem. Ao invés, se um casal tivesse uma irmandade de sete raparigas, uma delas seria bruxa.
O lagrisomem é um homem que, durante o dia, é uma pessoa normal, mas tem um fadário: todas noites de Sexta-feira tem de correr os sete lugares da freguesia (Amoreira Fundeira, Amoreira Cimeira, Ribeiro, Folgares, Padrões, Trinhão e Indioso), com os chocalhos de todos os animais das aldeias a fazer barulho. No dia seguinte, acorda todo "moído" sem se lembrar de nada e se não houver ninguém que lhe tire aquele condão, anda toda a vida a percorrer os ditos sete lugares.
Contavam os nossos trisavós que houve em tempos na Amoreira uma irmandade de sete rapazes e que um deles era um lagrisomem. Todas as sextas-feiras o som do chocalhar cortava o sossego da noite, rompendo pelas quelhas e caminhos. Os cães ladravam ruidosamente aquando da sua passagem e ninguém tinha a coragem de sair à rua durante essas noites, pois constava que a criatura batia ferozmente àqueles que se atravessassem no seu caminho.
Uma dessas noites, alguém mais corajoso resolveu pôr fim àquele fadário. Como sabia que o lagrisomem passava sempre sob o Passadiço – perto de onde hoje é o Largo da Rua - todas as sextas-feiras, resolveu esperar ali por ele, na escuridão, munido com uma aguilhada dos bois porque, segundo constava, era a única forma de acabar com o feitiço.
Eram já altas horas da noite quando, a certa altura, ouviu o barulho infernal dos chocalhos, acompanhado pelo ladrar furioso dos cães. Daí a pouco tempo, o homem viu o vulto do lagrisomem. Quando este se preparava para passar sob o passadiço o homem repentinamente espetou-lhe a aguilhada.
A partir desse feito, o fadado viveu todas as noites de Sexta-feira feira como uma pessoa normal e sempre muito reconhecido ao corajoso homem que pôs termo àquele seu fado.

Fonte Biblio AA. VV., - Pampilhosa da Serra - Crendices, cultura e tradição n/a, http://tradicao.com.sapo.pt/contos.htm,

Place of collection Portela Do Fojo, PAMPILHOSA DA SERRA, COIMBRA

InformanteAntónio Amaro Rosa (M),

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications