A Luz da Terra Alta

APL 1398

Havia um homenzinho já velhote que morava sozinho, lá para os lados da Terra Alta, em Santo Amaro. Os rapazes pequenos e outros já mais velhos gostavam de gozar com ele para o verem, zangado, correr atrás deles ou atirar-lhes com o bordão, furioso. Iam à sucapa bater-lhe à porta da cozinha, quando ele estava sentado à mesa a comer o seu prato de sopas ou a sua tigela de papas de farinha de milho. Outras vezes provocavam-no com brincadeiras tolas, quando ele estava sentado à janela aberta de par em par, ou atiravam pedrinhas às vidraças, se o viam sentado por dentro da janela. E matavam-se a rir com o que ele fazia.
 Naquela altura era assim. Apesar de se respeitar muito os velhos, havia sempre alguns na freguesia, talvez os mais pobres de espírito ou os que davam o cavaco, escolhidos pelos mais novos, que só querem rir e brincar, para alvo das suas brincadeiras. O pobre homem, que já não estava bom de cabeça como tinha sido em novo, andava desorientado.
 Uma noite, lá pelas duas ou três da madrugada, um sobrinho do velho foi bater-lhe à porta, com boas intenções, para resolver qualquer coisa que precisava. O homem, que estava na cama sossegado, imaginou que eram os rapazes que vinham mais uma vez atezaná-lo. Ficou doido. Levantou-se e, mesmo em ceroulas e às escuras, porque nem acendeu a candeia, foi à cozinha, pegou numa enxada que estava guardada num canto junto com os alviões, o machado, o foicinho e outros utensílios. Foi para a porta, abriu-a e, sem ver quem estava fora, porque tava escuro como breu, descarregou uma paulada com a enxada sobre a cabeça do sobrinho, que caiu logo, em cima da soleira da porta, morto.
 Quando viu o que tinha feito começou a gritar. Juntou-se poderes de gente e foi um desgosto muito grande para todos. Uma coisa estranha começou a acontecer a partir daí e durante todos os anos prováveis que o jovem devia viver neste mundo — começou a ser vista uma luz fagueira ora numa casa, ora nos campos, ora nos caminhos, a assinalar a presença do rapaz assassinado.
 Só passados muitos anos, a luz deixou de ser vista, quando acabou o tempo que tinha sido destinado o jovem viver.

Fonte Biblio FURTADO-BRUM, Ângela Açores: Lendas e outras histórias Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999 , p.241

Place of collection Santo Amaro, SÃO ROQUE DO PICO, ILHA DO PICO (AÇORES)

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications