A menina e o mandato

APL 2392

Havia ali na fábrica do João Fernandes, isto baseia-se tudo na baixa de Olhão, porque era perto da Fortaleza, penso que onde era o palacete da Floripes e dessa gente toda. Conta-se que as pessoas iam trabalhar, isto já me contou a minha sogra, que conheceu a miúda. E então: os encantamentos nunca recebem trocos e então havia uma miúda que ia esperar a mãe ao serão e um rapaz mandava-a compara tabaco. Dava-lhe uma nota e não aceitava trocos e dizia-lhe para ela guardá-los mas dizia sempre para ela nunca dizer que era ele que lhe dava e que guardasse o dinheiro para quando fosse mais velha ter dinheiro para se casar. A rapariguinha, como havia muita fominha, guardava o dinheiro e quando a mãe reclamava que não tinha para comer dava-lhe o dinheiro e a mãe dizia: “Onde é que arranjas-te este dinheiro?” e então ela dizia que era um senhor que a mandava comprar tabaco e dava-lhe aquele dinheiro para ela do mandato. Mas ela ia sempre aparecendo com dinheiro, não era todos os dias, era uma vez por outra, de noite. Uma vez a pequena deu dinheiro à mãe, quase sempre eram moedas, ainda não havia o escudo nem o euro. Então a miúda ia juntando até que chegou uma altura que a mãe tinha mesmo falta e ela foi buscar. Primeiro começou por dizer que tinha achado [o dinheiro] mas por fim disse que tinha sido um senhor que lhe tinha dado. A mãe foi trabalhar e disse que a filha lhe tinha aparecido com dinheiro, que lhe tinha dado um senhor de um mandato. Tal é a maldade do mundo que começaram a atiçar a mãe da miúda a dizer: “Ah se calhar isso é algum homem que abusa da tua filha e dá-lhe dinheiro para ela se calar e tu devias ver bem quem é!”
Bom, voltaram para casa e a miúda só dizia que era um senhor eu lhe dava mas não dizia quem era, claro, porque ele disse: “Nunca digas quem eu sou, senão redobras o meu encantamento!”
Então a mãe deu-lhe tanta pancada que ela teve muitos meses sem o ir esperar, teve muitos meses sem o ver e então uma das vezes como ela ficou de cama por causa da pancada, ele apareceu-lhe lá e disse para ela não dizer quem ele era, para continuar a dizer que era um senhor que lhe dava e pronto. Mas o pai depois veio também a saber e acho que com o cinto lhe bateu tanto que ela coitadinha contou que era um senhor que estava lá na fábrica, que a mandava comprar o tabaco e deva-lhe o dinheiro, para guardar e dizia não contar. Os pais quiseram saber quem era o senhor, mas é claro que ele não ia aparecer aos pais e então um dia a mãe disse para ela ir esperá-lo e puseram-se à espreita. Ela foi esperar e então ele disse-lhe: “Não contes nada porque se contares não venhas mais aqui e serás amaldiçoada porque me vais redobrar mais cem anos de sofrimento!” Os pais não viram ninguém e portanto acabaram por bater novamente. Quer dizer, massacravam a miúda porque queriam que ela contasse quem era o homem e ela não podia contar porque mesmo ela dizendo que era um homem que lhe dava dinheiro para ir buscar tabaco eles iam espreitar várias noites para ver quem era mas nunca chegaram a ver, não tinham poder para isso, só a miúda é que tinha. A mãe morreu com uma doença toda desfeita em porcaria e ela coitadinha sofreu para o resto da vida.

Fonte Biblio AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) Faro, n/a,

Ano2008

Place of collection Olhão, OLHÃO, FARO

ColectorNadine Pescada (F)

InformanteMarcelina Machado (F), 69 y.o., born at Olhão (OLHÃO) FARO,

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications