[A Moura da nora do Rio Seco]

APL 3799

A nascente do outeiro de Santo António do Alto, e logo em baixo, há uma funda planura, por onde em épocas remotas deslizou um rio, hoje denominado o Rio Seco. […]
    Em uma noite de primavera, alguns dias depois da tomada do castelo de Faro, passava um cristão muito próximo do hoje chamado Rio Seco, ouviu ele tinas vozes tristes, proferidas mansamente. Era meia noite e receiou-se o cristão de alguma cilada. Parou e pôs-se a escutar, esforçando-se em distinguir uns vultos, de onde supôs vinham as vozes. Em poucos momentos percebeu que eram um mouro e uma moura. Aquele aparentava os seus quarenta e oito a cinquenta anos: a moura era uma jovem, de joelhos, em atitude de quem suplicava. O homem, numa expressão de angústia, dizia:
    — Não pode ser, filha minha: aqui ficarás encantada.
    — E por muito tempo, querido pai?
    — Até que esta nora, dentro da qual mandei construir o teu palácio, seja esgotada a baldes, sucessivamente e sem intervalos.
    E ao mesmo tempo que proferiu estas palavras, fez uns sinais cabalísticos e levantou os olhos para a lua, que descrevia o seu giro na amplidão dos céus.
    A jovem depois destes sinais não proferiu palavra alguma e deixou-se lançar ao fundo da nora, sem proferir um ai.
    O mouro desapareceu em um momento, sem que o cristão pudesse notar a direcção que ele tomara.
    No dia seguinte voltou o cristão àquele lugar e viu então a nora, cujo engenho mourisco era muito velho e usado.
    Tratou logo de indagar a quem pertencia a nora e o terreno, e comprou-os por bom preço. Mandou construir ao lado uma cabana de junco e para ali transportou alguns móveis. Passados dias começou o homem, convenientemente auxiliado por um grande balde, a trabalhar no esgoto da nora. Naquela faina trabalhou horas e horas sem interrupção, dia e noite. Quando no fundo da nora era já tão pouca água, que nem enchia o balde, desceu agarrado a uma corda. Apenas assentou os pés no fundo, apareceu-lhe uma grande serpente, que saira de um buraco que comunicava para a nora. A presença do bicho foi o bastante para ele se encher de horrível pânico e, sem tratar de saber se o animal vinha com más intenções, subiu pela mesma corda, e saltou para fora da nora. Nunca mais ali voltou; soube, porém, dias depois, que a nora estava completamente entupida, porque as suas paredes tinham caido, e que a cabana por ele construída, fôra queimada em certa noite.
    Daí em diante começou toda a gente a falar do aparecimento de uma moura encantada naquele lugar, aparecimento que ainda hoje se repete, pois que actualmente foi reconstruída a nora que me dizem fazer parte de uma horta do senhor Joaquim Ascenção.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.153, cap. XV

Place of collection Faro (Sé), FARO, FARO

Narrativa

When XIII Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications

MotivosTh [F234.1.7.] Fairy in form of worm (snake, serpent).
Th [F222.1.] Fairies' underground palace.
Th [F721.5.1.] Underground palace full of jewels.