A Moura de Pêra

APL 1588

Pêra é bonita povoação, situada à esquerda da estrada distrital de Faro para Lagos, em lugar um pouco elevado. Antes de 1683 esteve Pêra anexada à freguesia de Alcantarilha: foi o Bispo D. José de Meneses quem fez a separação das suas freguesias, Pêra e Alcantarilha.
 Próximo da povoação de Pêra há uma excelente horta pertencente ao meu velho amigo, o ex.° sr. Francisco dos Santos Xavier, cavalheiro honrado e benquisto, daquela povoação. Ao entrar na horta, pelo menos no tempo em que ali estive, ficam-nos à esquerda o tanque e a nora. A um canto desse tanque estão enterradas grandes riquezas, que um rei mouro ali deixou.
 Ignora-se a razão desse facto e o que resta ainda na memória do povo é o seguinte:
 Um rei mouro encantou naquele lugar, em serpente, uma filha sua e deu-lhe como guarda um enorme carneiro. Como disse, não se sabe a razão porque o pai encantou a filha. Naturalmente, e segundo se deduz das declarações das pessoas idosas, foi causa do encantamento negar-se a filha a casar com um sujeito muito mais idoso do que ela e, demais, irmão do pai.
 Todavia, não obstante os desgostos do velho rei mouro por a filha não obedecer à sua real vontade, o desencanto da filha está dependente de uma operação muito simples. Quando o velho a encantou disse:
 — E aqui permanecerás encantada até que qualquer mortal se lembre de apanhar o rouxinol que de hoje em diante, vier cantar em noite da véspera de S. João, na árvore fronteira ao tanque.
 E efectivamente, desde o encantamento da desditosa moura, ali tem cantado todas aqueles noites um rouxinol sobre as árvores frondosas daquela bonita horta, mas ninguém tem podido apanhar o plumoso cantor.
 Supõe-se que o tio da moura encantada seja o carneiro que a guarda, o rouxinol o namorado preferido pela moura, mas essa suposição, quase tão antiga como o encantamento, apenas tem em seu favor a tradição constante.
 No príncipio muitos rapazes tentaram apanhar o rouxinol, mas hoje já ninguém pensa nisso por ver que é muito difícil.
 E os grandes tesouros ali jazem escondidos aos olhos mortais e ali permanecerão por muitos anos, porque a mocidade de Pêra, actualmente, atira-se a negócios mais positivos e de menor dificuldade. Estamos realmente no fim de um século para entrar noutro, que se nos afigura essencialmente positivista. Em Pêra encontrei há dias um rapaz a quem perguntei por que não tentava apanhar o rouxinol.
 — Se eu quisesse, apanhava-o, armando-lhe um laço, mas depois?
 — Não te entendo.
 — Eu apanhava o rouxinol, dirigia-me com ele para o tanque, e depois?
 — Aparecia-te a moura, agradecia-te o serviço, e dava-te a dinheirama escondida no centro da terra.
 —E o carneiro?
 — Cumprida a condição do desencanto o carneiro nada tinha que fazer.
 — Isso seria uma mina, mas não creio. O mouro despeitado por ver a sobrinha casar com o mancebo era capaz de me fazer alguma traição. Nada, nada, prescindo das riquezas, e prefiro conservar-me cristão, como meu pai e meus avós.
 E o rapaz continuou o seu caminho, cantando umas músicas algarvias.
 Estou portanto convencido de que o sr. Santos Xavier ali terá de suportar a moura em figura de serpente por muitos anos.
 Felizmente não se tem ela tornado muito incómoda. A rapaziada do povo, todavia, teme-a, e os velhos receiam de se aproximar do tanque, logo que começa a escurecer.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.229-230

Place of collection Pêra, SILVES, FARO

Narrativa

When XIX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

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