[O Mouro nos Muros de Silves]

APL 3808

Antes da construção da estrada que circunda os muros de Silves, havia um caminho tortuoso e mal limpo de que as lavadeiras faziam uso quando se dirigiam para um ribeiro que lhes serve de lavadouro. Rara era a vez que por ele passavam, antes de romper a manhã e ao meio dia em ponto, que não vissem postado de pé no mais alto dos muros um belo mouro, vestido de amarelo, de grande chapéu na cabeça, acenando-lhes com a mão e prometendo a sua felicidade se dele se aproximassem.
    Nenhuma tem ousado aproximar-se-lhe, antes, apenas o avista, põe-se de corrida. Então sobre ela cai uma chuva grossa e desabrida como água de pedra, de que nem tenta resguardar-se porque mal lhe dá tempo para correr com a sua trouxa debaixo do braço. Quando as pobres chegam ao lugar e se supõem molhadas, verificam então que nem uma pinga lhes caiu sobre a roupa.
    Há anos que o mouro não aparece. Seria acaso desencantado por alguma lavadeira mais caritativa? Creio que não. É sabido que o mouro encantado prefere a vida isolada. Deseja estar só, aparecendo quando lhe apraz. Ultimamente, há também alguns anos, a Câmara de Silves aproveitou os muros, transformando-os em prisões, e com essa obra nova coincidiu o desaparecimento do mouro.
    Conserva-se ainda ali o triste mouro, afirmam-no todos os presos. Em todas as noites, de verão ou de inverno, quando o sino do relógio dá as últimas badaladas da meia noite, sentem todos um estremecimento horrível, ouvindo distintamente mexer em papeis.
    Têm propositadamente feito todas as experiências no intuito de inquerir da origem daquele fenómeno. Nada têm conseguido. Quem mexe em papeis? Certamente alguém: é o mouro, dizem todos a uma voz.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.221-222, cp XXIX A Moura de Silves

Place of collection Silves, SILVES, FARO

Narrativa

When XIX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications