[A Moura do Poço de Vaz Varela (miscelânea)]

APL 3805

Muitas pessoas da mais remota antiguidade até hoje têm transmitido pela tradição, sempre constante, que viram no seu tempo, encostada ao gargalo do poço, a moura encantada, umas vezes ao meio dia em ponto, outras à meia noite em pino. Costuma ela pedir aos que lhe passam próximo a desencantem, prometendo-lhes muitas riquezas. Algumas pessoas extremamente condoídas e impressionadas têm acompanhado a moura até ao seu palácio encantado, mas, logo que avistam o dragão, fogem espavoridas, gritam à moura que as tire dali, e a moura, da melhor vontade, embora com o coração dilacerado, as tem dali tirado para fora. As que têm ocultado tal visita vivem por muito tempo, mas as que se atreveram a contar o que lá viram, têm morrido dentro de três dias.
    No princípio a moura Fátima não se portava lá muito bem com as pessoas que iam ao poço ou lhe passavam próximo. A tradição encarrega-se de apontar alguns factos que chegaram ao conhecimento de toda a gente e por isso estava o poço desamparado, apesar da sua água ser a melhor das proximidades de Tavira.
    O poço de Vaz Varela fica à saída da cidade, à esquerda, na estrada que vai para Vila Real de Santo António. Está aberto junto da cerca do antigo convento dos frades do Carmo.
    As maldades praticadas pela moura, partindo os cântaros das pobres mulheres que ali iam buscar água, e arrastando as infelizes pelos cabelos ao fundo do poço, tornaram-na antipática a toda a gente. Passados muitos anos tornou o poço a ser visitado, porque então pouco se falava já da moura, ou porque os outros poços não tinham água.
    Não são muito antigos os factos que vou apontar.
    Um tal José Peso Duro foi ao poço buscar água e viu junto deste uma esteira de palma com figos ao sol. Tentava o Duro aproximar-se da esteira no intuito de tirar alguns figos, quando lhe apareceu a moura. Ignorava o pobre homem quem fosse aquela senhora que, com modos desabridos, se opunha a que ele tirasse figos, e por isso ameaçou-a, mas a moura empregou tal energia e impôs-se-lhe tão pesadamente que ele viu-se perdido e começou a gritar pedindo auxilio. Então a moura desapareceu, descendo ao poço, ficando o pobre Duro horrivelmente impressionado.
    Em outra ocasião um velho moleiro, conhecido pelo Cativo, por isso que em tempo fora prisioneiro dos mouros, que o levaram cativo para Marrocos, de onde se escapou por milagre da senhora dos Mártires, indo da cidade para o seu moinho, encontrou junto do poço uma formosa mulher. Apesar dos seus trabalhos em África, o moleiro quis cortejar a mulher, tornando-se extremamente malcriado e impertinente, e dirigindo-lhe umas graças pesadas.
    Então a mulher pôs os dedos nos lábios e produziu dois silvos que retiniram por aquele sítio. O Cativo, receoso de que os silvos tivessem por intuito chamar auxílio, deitou a correr. Efectivamente em poucos momentos sentiu atrás um enorme tropel de cavalos. O moinho estava perto e ele pôde entrar e fechar-se em casa antes de ser alcançado.
    Em outra ocasião o mesmo Cativo foi buscar água ao poço de Vaz Varela. Já estava próximo quando viu uma mulher sentada sobre o gargalo. Pensou imediatamente que estava ali a moura. O pobre homem, que tinha as suas contas com a moura em aberto, afastou-se cautelosamente, voltou para casa e nunca mais ali foi.
    Outro indivíduo, conhecido pelo José Gigante, encontrou-se um certo dia com a moura, e dirigiu-lhe uma graça pesada e desenxabida. É claro que o homem não conhecia a moura; esta deu-lhe tamanha sova que o teve preso por muitos meses à cama. Depois deste acontecimento, sentia o Gigante, em certas ocasiões, sobre os costados muitas pancadas, apesar de não ver quem lhe batia. Resolveu depois de muito sofrer, mudar de residência, e partir para Gibraltar, onde esteve empregado nas barcaças; pois nem aí a moura o deixou. Em certas noites apanhava a sua sova, que o fazia clamar em voz alta por auxílio. Acudia muita gente, mas ainda assim continuava a ser espancado, sem que ninguém visse quem o espancava.
    Cansado e torturado, voltou novamente ao seu país procurando residência em Santa Luzia, povo de pescadores, a dois quilómetros de Tavira, em uma cabana onde morreu. Pois à hora da morte afirmava o infeliz que a moura lhe dava bastonadas!
    Se aos que se tornam impertinentes com senhoras, supondo-se amáveis, fosse aplicado um tal castigo, muita gente se convenceria que era realmente malcriada.
    Se os casos, até aqui narrados, criaram em redor da moura Fátima uma atmosfera impregnada de ódios e de malquerenças, outros há que, da sua parte, traduzem um coração bem formado.
    Uma vez passou certa mulherzinha próximo do poço com uma criança pela mão. Junto do poço estava estendida uma esteira de figos a secar ao sol. Muito naturalmente a criança começou a chorar porque a mãe não lhe consentiu que fosse à esteira buscar alguns figos. Então apareceu a moura e deu à criança dois figos, desaparecendo em seguida.
    Ficou a criança muito satisfeita com os figos, guardando-os nos bolsos para os mostrar ao pai. Logo que chegou a casa correu a mostrar os figos a uma sua irmã. Ficaram todos admirados quando viram na mão da criança dois belos dobrões em ouro.
    Foi este um caso tão falado que a moura começou então a subir no conceito geral.
    Consta que em tempos passados, quando alguns cavaleiros da vila, entusiastas da caça grossa, iam à serra caçar javalis, viam-se às vezes acompanhados de formosa dama montada em valente corcel alazão. Por diversas vezes tentaram investigar de onde tal dama saía, e nunca isso lhes foi possível. Quase sempre ao aproximar-se da cidade, ela desaparecia por encanto. No dizer dos caçadores tão encantada parecia a moura como o corcel.
    Por muito tempo foi a moura Fátima perseguida nos seus créditos de mulher. A língua do povo, que nem sempre sabe poupar o crédito dos mais honrados, atribuía à moura pensamentos que ela nunca teria.
    Enfim quem pode com verdade afirmar que nunca foi atingido pelos que vivem da desonra e do descrédito?!...
    Todos estes casos, que ficam narrados, são contados ainda por toda a gente, embora tenham chegado por intermédio da tradição. Vou agora referir um diálogo de há semanas, que serve de prova para demonstrar que ainda hoje há muita gente que liga toda a fé às lendas de mouras encantadas.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.185-188, cap. XXIII

Place of collection-, TAVIRA, FARO

Narrativa

When XIX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications

MotivosTh [F361.17.] Other punishments by fairies.
Th [F349.] Gifts from fairies -- miscellaneous.