[A Moura do Rio Seco]

APL 3774

Em outra ocasião estava um hortelão à espreita das lebres e coelhos que vinham à sua horta roer nas alfaces, quando ouviu umas conversas de pessoas ali perto. Era também noite alta, pois que a esse tempo ouviu as pancadas do sino do relógio da cidade, anunciadoras da meia noite. O fado que vou narrar deu-se ainda no tempo em que D. Afonso III estava em Albufeira em grande namoro com a filha do governador mouro daquela vila.
    Reparou o hortelão cautelosamente nas pessoas que conversavam e conheceu perfeitamente que eram um mouro e uma infeliz moura.
    — Perdoa-me, pai! —  exclamava a jovem em soluços.
    — Não posso, filha minha, e Allah sabe com que pena te aplico tão duro castigo.
    E ao mesmo tempo começou a fazer sinais sobre a cabeça da filha, pronunciando umas palavras ininteligíveis e dizendo no fim:
    — Aqui permanecerás encantada até que duas pessoas de sexo diverso amassem filhoses com a água deste rio, na vespera de S. João, e aqui as venham comer depois de mutuamente se terem atirado à cara com as mesmas filhoses. (sic)
    E o mouro dizendo estas palavras atirou com a filha ao rio, lançando em seguida uma enorme caixa cheia de dinheiro.
    Este rio, do que reza a lenda, é o mesmo hoje conhecido pelo Rio Seco, o que faz crer que naquela época ainda se não tivera secado de todo.
    Na próxima véspera de S. João o hortelão e sua mulher, embora a esta fossem desconhecidas as intenções do marido, amassaram as filhoses com a água do rio, e junto do lugar do encantamento comeram as filhoses depois de se terem mimozeado com as mesmas, que mutuamente atiravam à cara um do outro.
    Quando acabaram de comer as filhoses, apareceu-lhes uma linda mulher vestida de moura que lhes agradeceu reconhecidamente o seu desencanto, desaparecendo imediatamente.
    Então o homem, que sabia nadar, atirou-se ao rio, e do fundo transpôs para terra uma caixa cheia de dinheiro em ouro.

Fonte Biblio OLIVEIRA, Francisco Xavier d'Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.154-155

Place of collection Faro (Sé), FARO, FARO

Narrativa

When XIII Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications

MotivosTh [H1199.5.] Task: disenchantment