[A Moura e os Figos]

APL 2098

Diz que havia um rapaz, qu’era caçador, e pegou na espingarda p’ra ir caçar. Quando ia no meio do mato, vê uma linda rapariga, sentada à beira duma grande esteira, com um cabelo que chegava abaixo, a pentear-se.
E essa esteira ‘tava tapadinha de figo flor, figo do melhor.
 A rapariga tinha o cabelo louro e diz qu’era linda como uma estrela!
 O rapaz passou assim perto, e disse:
 — Ai, que linda mulher!
 E olhou p’ros figos, também.
 Ela, quando viu ele a olhar, disse-lhe:
 — Quer uma mancheia?
 E ele disse-lhe:
 — Não.
 — Ai, nã diga que não! Receba, qu’eu dou-lhe de boa vontade.
 E o rapaz viu qu’ela ‘tava com tanta vontade de lhe dar os figos que os recebeu.
 E ela deu-lhe um punhado grande e disse:
 — Coma
 E ele disse:
 — Nã, nã tenho apetite!
 — Então, guarde p’ra mais tarde.
 Andou uma certa distância e, quando vai p’ra comer os figos qu’a rapariga lhe deu, joga as mãos as algibeiras e vem um punhado de libras.
 E pensou:
 — Ai, que grande bruto que fui! Pois s’ela me disse que dava os figos qu’eu quisesse! Pois, por qu’e qu’eu nã arrecebi mais outro punhado? Eu volto atrás e vou lá outra vez! Vou ficar rico.
 E voltou.
 Volta, e, quand’ ele avista a esteira, em vez da linda rapariga, ‘tava uma serpente qu’atravessava a esteira de ponta a ponta.
 E diz-lhe:
 — Ah, tirano!
 E que, s’ele nã voltasse atrás, ela continuava aquela mulher linda, desencantada. Mas como voltou, dobrou-lhe o encantamento de novo.
 E a esteira ‘tava tapada de carvões pretos, em vez dos figos, e os qu’ele tinha, na algibeira, também era tudo carvões pretos. Já nã era libras!
 E ela, ah, ficou feita numa serpente.
 E acabou a historia.

Fonte Biblio CUSTÓDIO, Idália Farinho Memória Tradicional de Vale Judeu II Loulé, Câmara Municipal de Loulé, 1997 , p.201-202

Ano1996

Place of collection Loulé (São Sebastião), LOULÉ, FARO

InformanteSalvina Batista (F), 61 y.o., born at Loulé (São Sebastião) (LOULÉ) FARO,

Narrativa

When

CrençaUnsure / Uncommitted

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