A moura encantada

APL 1013

Todas as manhãs, uma mulher de cântaro à cabeça atravessava o Monte das Caldas para levar o leite ao posto. Era de uma família pobre e trabalhava para um rico lavrador que costumava abusar dos seus serviços.
Um dia, uma cobra enorme desceu dos penedos junto ao caminho e atravessou-se-lhe no caminho. Ao vê-la, a mulher deu um grito e ficou queda do susto.
– Não te assustes, mulher! – disse-lhe a cobra.
A mulher, quando viu a cobra a falar, ainda se assustou mais.
– Acalma-te, que eu não te faço mal.
– Que me queres? – perguntou a mulher a tremer como varas verdes. – Eu não tenho prata nem ouro. Trago apenas este cântaro de leite.
A cobra respondeu:
– Eu não quero nem prata nem ouro. Disso tenho eu de sobejo. E muito menos quero o teu leite.
– Então que me queres?
– Precisava que me fizesses um favor.
– Um favor? – perguntou a mulher ainda mais assustada.
Então a cobra contou a sua história:
– No tempo em que estas terras ainda eram dos Mouros, um senhor muito rico tinha uma filha muito bela. Mas um dia os cristãos invadiram as terras e o senhor resolveu partir com toda a sua gente, deixando a filha encantada a tomar conta do tesouro que escondeu debaixo de um penedo. Embora já tivessem passado mil anos, a donzela ainda vive. Essa donzela sou eu.
Um tanto confusa, a mulher perguntou:
– Mas tu és uma cobra.
– Foi meu pai que me encantou.
A mulher, olhando para o adiantado da hora, disse:
– Tenho de ir andando, senão o leite azeda e no posto já não o querem.
– E quanto ao favor que te pedi? Se mo fizeres, todas as riquezas que eu guardo serão tuas. Estou farta de ser cobra. Preciso de quebrar o encantamento para voltar a ser uma donzela.
– E que tenho eu de fazer?
– Dar-me um beijo. Só precisas de me dar um beijo para que todas as riquezas sejam tuas.
– Vou de pensar – respondeu a mulher.
– Amanhã, à mesma hora, ao teu encontro irei, pelo teu corpo subirei, na cara me beijarás e todas as minhas riquezas serão tuas.
No dia seguinte, a mulher ia caminhando com o cântaro do leite à cabeça. Não contou a ninguém o que lhe tinha acontecido. Tinha receio de passar pelo mesmo sítio, mas não havia outro caminho e metera-se-lhe na cabeça aquela ideia do tesouro. Com ele podia deixar de trabalhar para o patrão que abusava dela.
Ao aproximar-se do lugar do dia anterior, voltou a encontrar a cobra. O réptil rastejou até ela, enroscou-se-lhe pelas pernas acima e chegou-lhe com a cabeça perto da cara. A mulher olhou-a com grande nojo e medo e, ao ver aquela língua de fora, os olhos pequenos e fixos como os do diabo, as escamas peganhentas, deu um grito:
– Ai Nossa Senhora valei-me!
Ouviu-se um grande estrondo e uma voz que dizia:
– Ah, maldita, que me traíste!
A partir de então, a mulher não mais encontrou a cobra, embora não se sentisse lá muito segura quando por ali passava com o cântaro à cabeça.

Fonte Biblio AA. VV., - Literatura Portuguesa de Tradição Oral s/l, Projecto Vercial - Univ. Trás -os-Montes e Alto Douro, 2003 , p.ME1

Ano2000

Place of collection Semelhe, BRAGA, BRAGA

ColectorJosé Leon Machado (M)

InformanteFrancelina Machado (F), 67 y.o., Semelhe (BRAGA) BRAGA,

Narrativa

When XX Century, 90s

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications