A Mulher da Máquina

APL 2998

Era assim que era conhecida — a Mulher da Máquina. Eu ainda me lembro da primeira vez que a minha mãe me chamou:
— Isilda, vem cá ouvir a mulher da máquina!
Eu fui. E ouvi. Era de facto um barulho semelhante ao de uma máquina de costura a coser. De vez em quando parava, para recomeçar pouco depois. Entretanto, o ruído desapareceu. Depois disso, várias vezes ouvi o mesmo barulho, sempre em dois sítios apenas: dentro de uma lata de costura e debaixo da almofada.
Ainda há pouco tempo, alguém me dizia:
— Em casa da minha avó, nós levantávamos um papel que ela lá tinha numa parede e a mulher da máquina lá estava quase sempre. Até se ouvia ela a cortar com a tesoura.
Dizia o povo, que era uma mulher que tinha prometido dar a Nossa Senhora uma máquina de costura se “algo” lhe acontecesse. O seu desejo realizou-se, mas a mulher não pagou a promessa devida. Quando morreu, tornou-se uma alma penada e andava pelo mundo a coserá máquina como castigo. O estranho barulho era o sinal da sua presença, parecia vir de sítio nenhum e desaparecia como que por encanto.
Depois, o estranho ruído deixou de se ouvir. Mesmo os mais velhos confirmam isso. A mulher da máquina deixou de aparecer.
O que era, de facto, aquele ruído, não sei, mas que eu o ouvi muitas vezes, lá isso ouvi.

Fonte Biblio JANA, Isilda Histórias à Lareira Abrantes, Palha de Abrantes, 1997 , p.88

Ano1996

Place of collection-, ABRANTES, SANTARÉM

InformanteIsilda Jana (F),

Narrativa

When XX Century,

CrençaUnsure / Uncommitted

Classifications